segunda-feira, 24 de novembro de 2025

O Grande Mistério de Deus

     Eu acordei com os ecos da eternidade, tudo em seu próprio começo e tudo em seu próprio fim. Às vezes eu quero fechar os olhos e fingir que não há más notícias ou que não há guerras lá fora, nem pessoas boas, nem más, nem certo, nem errado, mas o mundo desmorona à cada oração, políticos lambem nosso dinheiro enquanto a prostituição, as drogas e a violência fazem parte da rotina de pessoas como eu e você – nós tentamos viver nossas vidas como se nada disso fosse real, como se fossemos egoístas em um mundo livre, mas a cada colher na sua boca, uma criança morre de fome, a cada abraço que você dá, um homem comete suicídio, a cada compra que você faz, uma garota foi vendida, a cada beijo, uma mulher é estuprada... eu preciso continuar? Olhe só para você, dizendo-se cansado, quebrado e triste, isso me deixa doente! Por que não importa o que você faz ou lute nesse mundo, você não pode acabar com a injustiça, somos obrigados a viver nesse lugar como um teste de marionetes, e ai daqueles que desistem... mas um grupo muito pequeno de pessoas sabe o que está acontecendo, a lenta torção das engrenagens desse mundo está parando, mas você não vê, não ouve, não sente e não se importa... você está dançando no circo de fantoches, enquanto a raça humana comete suicídio em massa. Eu cansei de prender essas palavras na minha garganta, pois o vento fala em línguas, mas somente os surdos ouvem, somente os cegos veem as nuvens pretas, enquanto seus olhos se transformam em pedra. Chamam-me de louco, mas aqueles que sonham acordados estão cientes de coisas que escapam àqueles que sonham apenas dormindo. Os vislumbres da eternidade, os fragmentos da sabedoria, a verdade que penetra a bússola da existência, muito disso é glorioso, mas não brota em um pensamento enfermo, pois é necessário uma razão lúcida, pertencente à memória que constitui as primeiras épocas da vida, isto é, o limiar do grande mistério. Esses lábios macios, eu posso ouvir o que você está pensando enquanto lê essas palavras, eu estou tocando em você, enquanto o arrepio se espalha pelo seu corpo, eu posso provar seu gosto, enquanto o conhecimento proibido está sendo compartilhado com você. Existe algo invisível por trás disso tudo, uma manipulação demoníaca, uma música que rasga o véu, pois no escuro, velhas semeiam em verdade, crianças fazem rodas de adoração, homens santos invocam o nome que está sobre todo nome. A recompensa dessas almas é o sofrimento, não o prazer e o sustento, por que elas entendem que a eternidade não está nesse mundo, mas naquilo que enxuga suas lágrimas, isto é, a voz suave e leve do espírito primordial, o qual grita incessantemente com gemidos inexprimíveis, tentando nos resgatar de um futuro negro, de uma existência injustificável, por que muitos fingem vê-lo, mas poucos são os que ouvem sua voz. Você continua bancando o tolo? Com pena de si mesmo, enquanto usa perfumes caros, enquanto vê mendigos e não faz nada, enquanto é manipulado pela mídia e elege a escuridão do próprio país, você faz parte da fumaça da vergonha, da covardia que assola o mundo, escondendo-se por trás de uma máscara de sofrimento, e peca somente por existir! Oh, Deus, que pobre alma miserável! Os espelhos sempre dizem a verdade, e agora você pode ver, o quão sujo e imundo você é, pois o sofrimento de um homem é exatamente como pintar sobre a terra: sujeira... ah, agora você entende? Mas nada fará, seu coração frio não será tocado por essas palavras, seus olhos cansados se fecharão, você nem sequer sabe o que precisa ser feito, pois está esgotado e morto como todo mundo. Como a boca que se move e nada diz, o seu corpo exala a podridão de um pecador condenado ao inferno. Com seus pés pretos, você pisará fundo e correrá, na velocidade das suas lágrimas, do mistério que é Deus.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

A Última Peça do Poeta

    O sol está dormindo sossegadamente, as florestas calmas e melancólicas, o balanço sob a presença de mil luas. Este é um último verso perfeito, uma poesia sem rima, como as palavras de uma vadia em um mundo frio. Estes prados do céu continuam os mesmos, sem mais sonhos guiadores, apenas duas faces com olhares fixos e pálidos: uma virada para os mistérios do alto, outra para cada rosto sorridente. Venha comigo, estou abrindo uma porta enquanto você lê, beba do meu pensamento, chupe os seios que jamais amamentam, alimente-se de um corpo rendido ao prazer... eu vivi tempo suficiente para ouvir o som da sua ingratidão, para sofrer com os gritos da injustiça, tempo suficiente para ver meus amigos me traírem, enquanto os corvos festejavam sobre um poeta pobre. Mas ele nunca morreu... mesmo quando um excremento escuro e cinzento desceu pelo ralo do banheiro, “salve-me”, dizia em silêncio, mas sua música já não era ouvida – para cada palavra escrita, mil eram apagadas. Agora estou nu, na magia do inverno, de repente casado com um encontro simbólico e desconhecido, mas tão real quanto lobos famintos e doces harpas élficas tocando, pois desde que a conheci algo dentro de mim se transformou: pareciam que todas as estações aconteciam simultaneamente, como se eu molhasse os olhos de uma viúva, quando o único morto era eu. Em menos de uma semana você me levou para dentro da sua casa e a falta de tempo devorou a beleza da nossa paixão, pois três dias se passaram, despidos na sua cama, enquanto seus grandes olhos de opala aceitavam meu pedido de casamento. Restava-me apenas um mês para cumprir meu propósito e você chegou na hora certa, como o eixo de uma isca que me puxava para um riacho de agonia, quero dizer, você me trouxe de volta à normalidade, comendo suas comidas saudáveis, acordando com seu beijo de bom dia e dividindo o mesmo teto, quase como um sonho acordado, como se a voz do espírito santo sussurrasse: “estive preparando algo para você, algo que transcende o ouro e a prata, que abole a feitiçaria, que te salvará da loucura, e a única coisa que você deve fazer é largar mão de tudo”. Ora, como um tapa na minha face, descobri que seu útero era obstruído, em troca disso, você era a mulher que eu sempre desejei ter ao meu lado. Deus me deu tudo, mas tirou a única forma de iluminar as trevas, isto é, de cumprir meu propósito, como um último aviso para que eu jamais me envolvesse com as silhuetas de um anjo caído novamente. Profunda era a ferida entre suas pernas, pois no passado você tirou a única esperança de uma alma vivente, e Deus a puniu severamente, interligando nossos destinos para que no fim tudo fizesse sentido. De que outra maneira eu poderia dizer, que a alma assassina é você? Sua pele é branca como algodão, seus cachos, dourados como a mais reluzente aurora, seu cheiro me invade em cada canto da casa, pois você adora pendurar suas calcinhas... entre murmúrios de desejo, você conversa comigo em silêncio, e é quando eu esqueço das preocupações e aflições do passado, podendo ser a cada dia um pouco mais de mim mesmo. Você faz meus desejos se tornarem realidade como se flutuássemos em um céu enluarado, as pessoas lá embaixo estão dormindo enquanto nós voamos, enquanto o azul da meia-noite é mais profundo, e através do mundo, as vilas passam como se fossem árvores, os rios e as colinas, tudo está ficando para trás. Você é meu presente dos céus, mas o preço que paguei para recebê-la foi abrir mão de tudo que eu tinha, ainda assim, você permaneceu ao meu lado, investindo seu suor para me ver crescer, por que a chuva cai com desejos e o aço corrói a graça, mas é quando suportamos até o fim que demonstramos o amor puro e verdadeiro. Minha alma está queimando, não no inferno, mas de felicidade... sim, Deus me fez enxergar como ser feliz é simples, e todas aquelas coisas que eu acreditava serem importantes ficaram para trás como muitas vidas se passando em um segundo. Agora está ficando cada vez mais fácil de respirar, a alma virgem que vive em mim nunca esteve tão livre, escrevendo palavras feias para você chorar, oh, eu preciso que você cante dentro da minha mente, onde quer que você esteja, na vida ou na morte, pois agora a mágica parece tão distante, eu deixei meu pequeno paraíso e queimei alguma coisa que eu tenho sido por muito tempo, para viver uma vida comum. A noite se abre, guiada por apenas um sentimento, não apenas para sobreviver, mas para morrer vivo.

domingo, 17 de agosto de 2025

O Filho Pródigo

     Esperei, como quem espera por uma bomba-relógio. Cada pequeno instante era uma faísca do tempo se soltando, um momento escrito pelas estrelas se rasgando, uma chance de cumprir a promessa se quebrando. Algo estranho corria pelas minhas veias como um polvo que se desprende para possuir cada neurônio do meu cérebro, cada fio de sangue pintado por um translúcido negro. Eu sentia que uma melodia infecciosa tocava, mas ao mesmo tempo, eu queria beijar seus olhos, passar a mão quente na sua bochecha, sentir seu abraço eterno uma última vez... tudo isso não seria uma graciosa imitação do vazio? Ora, atente-se a estas palavras, para que não te percas no caminho, pois elas podem não pertencer a você. Minha alma viajou por muitos pensamentos turbulentos até chegar aqui, refletindo a beleza do que queima na estratosfera do meu peito, nos extremos do meu espírito, onde vive para sempre nessas palavras... como uma vulva sendo consumida, sua íris será a única capaz de absorver o que deixarei para trás, como cores e expressões visuais que ninguém além de você poderá captar nessas linhas. Veja, estou fazendo uma mistura divina para você, algo leve como nuvens se formando, suave como o toque de um assopro ao entardecer, um gene que não pode nascer ausente do imaterial, enquanto rochas adormecem ao redor da pequena estrela que renasce... sim, o mundo onde eu existi por completo! Nós éramos tão unidos, assim como os quatro elementos são para a quintessência, nem a mais forte tempestade conseguia nos afogar, por que tínhamos o composto básico da construção da vida, os elementos e as moléculas nos cercavam como anéis circulares, vibrando na velocidade do sistema solar, quase como se refletíssemos sua imensidão. Aqui habitava a órbita excêntrica, nossos núcleos estavam próximos de colidir e formar um novo universo, de expandir o cosmos com visões que nenhum homem conhece, a imagem de um enigma e de um segredo, de irmãos celestiais, cujo nome não pode ser dito, mas que uma parte habitou em mim e outra em você – tanto seu lado masculino quanto feminino eram filhos da mesma semente... a única diferença era a forma como nós dois o percebíamos ou pela capacidade de entender seu desígnio, pois eu sei que você ainda escuta, a voz que ultrapassa seus pensamentos, os rasgos estilhaçados da verdade que foi perdida, mesmo agora quando você carrega no dedo a aliança de uma união moldável à matéria. Falarei como alguém que um dia te conheceu, por que sei que você ouve essas palavras com dor no coração, e eu sei que as coisas terminaram de uma forma desumana, com falhas e ações impulsivas, e ambos saímos magoados, desalentos com as desilusões da vida terrena, conveniente à causa, mas nunca ao que cultivamos secretamente. Se você visse minhas lágrimas em cada letra, ainda acharia que desejo teu mal? Minha memória ainda reproduz aqueles eventos destrutivos que passamos, mas a afeição é um estado de espírito, o vazio nunca poderia ser preenchido pelo fim material. É um coágulo das próprias palavras envenenadas, uma memória confinada ao silêncio, escondido em mim e em ti, mesmo que o nosso destino tenha sido engolido pela distância. Você esperou tanto tempo para ouvir o que tenho a dizer, mas até um pedido de desculpas não passa de uma massa de moléculas e átomos, o que nós temos vai muito além do que é visível, muito além do que a existência questiona, pois eu sei que você lembra... do pacto por uma vida, e todo pacto, um dia, cobra seu preço. O destino executa seu curso, mas quem poderia desunir o que é eterno? Meu amor por você jamais esfriou, eu apenas não pude suprir suas vontades terrenas, pois em um passado distante, eu também fiz minha escolha – ainda me lembro como se fosse ontem, a voz sutil e infernal, dizendo: “obtenha conhecimento ou riquezas, sabendo que ao escolher uma, perderá a outra”. Assim eu selei meu destino nessa terra, embora não pudesse escapar da minha missão divina, a mesma que compartilhei com você e a falsa quintessência. Eu tenho tudo para me tornar o homem mais afortunado do mundo, mas eu simplesmente nunca tive permissão para alterar minha vida. Nunca foi uma maldição, foi uma escolha. E eu não te culpo por me deixar pelos bens materiais, talvez como homem, eu fui punido por minha lealdade ao teu desejo, enquanto o destino me desgarrava. Esta é a única verdade, eu sempre quis te livrar dessa prisão, por que essa é a razão pela qual o senhor das trevas implorava por sua redenção, ele sabia que nós sempre teríamos essa necessidade, e somente ele tinha o poder de trazer nossa liberdade: não era ele quem a tirava, mas a escolha que eu fiz pela minha eternidade. Sendo ainda mais claro: o que eu tenho e guardo comigo me servirá até na vida após a morte, é como se eu literalmente tivesse buscado o reino de deus, mas sem que as demais coisas me fossem acrescentadas. Se o preço de tudo isso foi te perder, pelo menos agora você entende que meu destino já está selado, mas o teu não... você sentia-se presa ao meu reino dos sonhos, enquanto a realidade florescia em você como uma cirurgia se abrindo, mas agora... você realmente se sente casada com o real? A pergunta que sempre te assombrará é o que poderia ter acontecido se você permanecesse... e a resposta é muito mais profunda do que todo o mistério que a envolve, pois o que te revelarei pode mudar tudo o que você sabia sobre a criação... por que você acha o criador dos céus e da terra nunca destruiu a estrela caída? Nunca passou pela sua cabeça que o anjo que todos abominam possa ser mais do que um anjo, que por trás das cortinas da história ele seja o filho pródigo de Deus? Ah, que melodia terrível e distante! Eu provoco esse fim absurdo, mas sua visão oscila e julga-me culpado, enquanto dorme ao lado de um homem que jamais te olhará como um dia ele te olhou através dos meus olhos.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Amor Incondicional

       As estrelas sabem, elas observam cada movimento nosso, seja no ar, onde a água é clara e pura, seja no solo, onde as terras são amplas. Mas todo esse universo onde vago está rasgado, para frente ou para os lados, as ruas são estreitas, por que a estrela negra cobra pelo meu tempo. A lua e os planetas passam com olhares de culpa – desbotados de luz – como teias que se distorcem, por que a vida espera pelo seu retorno... a vida, seria realmente aqui o seu nascimento? O céu laranja parece esconder este presságio, e a cada pequeno instante, eu sinto cristais em meus olhos caindo como nuvens pesadas, muitas palavras de amor na ponta da língua que não podem ser faladas. Quando você retornou para minha vida, todas as luzes dentro de mim reacenderam, minhas memórias ecoaram com cores vivas e eu pude sentir: só de você brilhar eu já era luz novamente. A princípio, o vento quente passava pelos seus olhos e uma cor desconhecida descia pelo seus lábios, como quando toquei neles e você tentou falar, mas eu não permitia. Nossas mãos tocaram-se como uma proximidade com o passado, e o sonho estava prestes a ser revivido... todas as noites eu ouvia sua voz como um disco repetido, me preocupando com seus problemas e fazendo de tudo para ter um momento a sós com você, por que eu sabia que um pequeno instante ao seu lado valia mais do que minha vida inteira. Eu contava os segundos sob seu brilho dourado, mesmo quando me despedia das suas caronas – você estava no volante, mas era eu quem estava dirigindo nossa história. Pelo menos assim eu acreditei... até as joias do prado começarem a enferrujar, pois no silêncio, eu não ouvia os passos que caminhavam pela parede, a melodia assustadora de uma frase dita por você e que eu jamais esqueceria... parecia com o sol humano, ardente como uma fornalha e mortal como o último suspiro de um pássaro. Você disse: “eu não aceito ser amada por você”, mas o que você não entende é que, independente de quantos oceanos ocos eu atravesse, meu amor por você é incondicional. Você é a personificação perfeita da aurora e de todos os elementos da quintessência, sua gentileza é semelhante à mais terna luz do horizonte, sua bondade como o arranjo secreto dos anjos, sua beleza como a mais linda música do inferno, e acredite, você é a única arca onde poderia navegar meus filhos, desde que sua mãe verdadeira os abandonou. Beije-me, como eu beijo você, sinta minha falta, como eu sinto a sua, por que o fogo é muito quente, mas aqui, os beijos não queimam, mesmo quando somente eu estou sonhando... como as histórias que você me pedia para contar antes de pegar no sono. Você vai dormir bem se eu contar uma última história? Eu sei que estou escrevendo como um idiota, mas que tipo de idiota eu seria se não amasse você? O seu amor me transformou, curou minhas feridas e limpou toda sujeira cinza, mesmo que esta sujeira nunca desapareça... em meu último ano de vida, eu posso ser livre para amar? Livre para sentir? Para chorar? Para ser quem eu sou? Livre para viver? Para sorrir sem medo do fim? Quando todas as estrelas caírem do céu, apenas uma você verá brilhar, e o nome dessa estrela ecoará em seus ouvidos para sempre, um sino profundo, quando o mundo inteiro ser inundado pelo abismo... então você lembrará que um dia teve a chance de salvá-lo, a chance de amá-lo e de trazê-lo ao mundo. A vida é exigente, mas nós somos fracos, fracos para entender os mistérios do alto e de andar de mãos dadas com o destino. Esta é a última coisa que eu vejo, a história enterrada em meus pulmões, e talvez a última viagem que nós faremos juntos... é assim que eu me despeço, pois você nunca entenderá o amor que eu sinto por esta criança, não enquanto tivermos a chance de tocar em suas mãos, de ver a alma assassina em seus olhos ou de saber que seu coração foi perdoado pelos céus. Pela eternidade de um instante, se meus olhos coubessem no tempo, eu os congelaria com sua imagem para todo sempre.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

A Luz Verdadeira

     No céu indefinido, uma tinta púrpura penetra as nuvens e transborda nas chuvas do tempo. Eu conto de cinco em cinco, esperando a oportunidade perfeita para ressoar ao mundo, o renascimento do que estava condenado às chamas, asas cinzas como pedra, o corpo esbelto e colossal, como nas páginas de um homem morto. Como uma lua cheia mergulhando nas árvores, você surgiu quando a falsa promessa retirava seu manto cinza, mostrando a todos sua própria desfragmentação. Em sua beleza aquecida, suas pupilas ardiam de um negro brilhante, mas a estranheza estava em seus olhos: pareciam levemente de uma natureza distinta em forma, embora nada além da sua expressão fosse tão belo quanto um horizonte em vasta latitude, pequenas ranhuras em seu rosto, para formar uma lembrança que nunca é esquecida, aqueles sinais que você insistia em chamar de sardas. O toque das nossas mãos inspirou-me com intensa vontade, mas sem que me impregnasse de intenções – era uma passagem pela intensidade dos pensamentos, das ações, das palavras e, claramente, pelos sinais imediatos da existência... o céu, através da miraculosa expansão do nosso abraço, uma mistura de deleite e temor, um contraste do que palavras ocultas costumam pronunciar. Quão singular foi a maneira que você conquistou minha atenção e como seu cheiro trouxe-me de volta à vida, uma vívida esperança da sensação de pertencimento. Você pediu para eu descrever esse dia... mas este dia resume-se a este momento, quando uma suave música tocava e o céu tornava-se um arco-íris de nuvens cinzentas. Àquela altura, sua presença tornou-se muito mais do que uma mera companhia, era algo imerso em palpitações, o desejo de desesperadamente duelar contra seus próprios instintos, pois não havia palavras imponentes para expressar seu olhar, o qual falava por contornos convulsivos enquanto tudo era pronunciado de maneira silenciosa. Era o sinal mais gentil da emoção, uma melodia mortal nunca antes conhecida, sendo aquela canção – o som do nosso encontro – o ecoar das próprias estruturas do amor. Mas esse amor, que acenava para nós, era a luz verdadeira, pois não havia nenhum traço de impureza ou desejo selvagem, apenas um solene suspiro da fraqueza humana, a sensação de um murmúrio passando por nossos ouvidos, como quando cuidei da ferida na sua perna ou seus dedos passaram levemente pelos meus cabelos, sem a exaustão emocional que sofremos depois de uma semana inesquecível, até sermos aniquilados e pulverizados de pesar. Eu me recordo perfeitamente de cada pequeno detalhe na sua voz, das suas risadas espontâneas, das maravilhosas cortinas que você tentava por acima das nossas discussões, mas, um detalhe que eu nunca esqueço, foi a maneira tímida como você me olhava se transformar num olhar de confiança e, mais tarde, em depressão e desespero. Eu perfurei todas as suas defesas tentando alcançar seu coração... mas você não podia fugir do que nutriu por seis outras vidas, mesmo quando sentamos de frente um para o outro e pulamos do prédio de mãos dadas – seus cabelos estavam brancos como neve e varridos pelo vento do mundo invisível, pois eu vi o que ninguém jamais viu, a versão mais intima e bela da sua essência, desde que as terríveis noites te guiaram despida e seus gemidos foram ouvidos pelos anjos, cujo assombro era vigorosamente prazeroso. Ainda estremeço, deixando cair os fúnebres tecidos ao ouvir o chamado de um som impreciso, a profunda quietude da sua luz se apagando.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Aurora Negra

     Em corredores azuis, abaixo das águas negras, nós caminhamos na luz do amor. Era uma mistura de dias frios e quentes, sempre preocupados com o tempo do alarme, por que não podíamos estender nosso tempo para sempre. Ao sentir o leve toque da sua pele macia ou encarar seus olhos que carregavam a beleza dos anjos, eu pude assistir estrelas e constelações no céu sem me preocupar com o amanhã, vivendo cada momento como a silhueta de uma memória do universo. A maneira como nossos encontros fluíam não era algo que pode ser planejado, não é algo corrosível como ouro falso, nem um instante que se alcança com viagens no tempo. Nós estávamos abaixo da guarda santa dos céus, onde anjos vigiam incessantemente, como uma bolha que se forma e nos separa do tempo do mundo, da maldade do que é inferior. Era eu e você, sem máscaras e olhares soberbos, apenas o frio na barriga e o nervosismo de quando duas estrelas cadentes se chocam nas orlas do destino. Eu preciso confessar, eu te contei uma mentira: quando eu disse que estávamos selando um pacto de silêncio, na verdade... eu nunca quis tanto que um beijo durasse eternamente. A chuva se derramava sobre nossos cabelos e eu conseguia ver a expressão real do seu rosto despido, aquele sorriso que você dá quando não sabe o que dizer... era somente um sonho? Talvez os melhores sonhos da vida não sejam de quando estamos dormindo, mas quando a realidade é áspera como um dedo raspando na areia ou limpo como o sal que se forma na lágrima. Esse é o grande valor da existência – de que nenhum segundo pode se repetir – quando o mundo inteiro está contra nós. Eu sei o quão difícil é para você... eu tentava gritar, mesmo quando minha cabeça estava debaixo do seu encanto ou quando dançávamos à luz do luar, por que ninguém podia saber ou sentir, ninguém estava sangrando nossa dor... era tão óbvio, tão puro o sentimento que você via em meu sorriso, em meus olhos, em meus lapsos de memória. Agora, tudo desvaneceu-se com a verdade, mas não são as verdades duras que nós temos que suportar bem? Qual o verdadeiro peso de um amigo, eu te pergunto, quando você é a morte e o paraíso? Nós sabíamos que era proibido, ainda assim, estávamos à beira de realizar a vontade dos céus! Imagine por um segundo que, encharcados de desejo, tivéssemos atravessado aquela porta... nem as estrelas do céu poderiam nos assistir, não haveria acusador nem sentença, apenas um vestígio de amor verdadeiro, de erros que são como marcas limpas ou pesadelos que não significam nada... uma verdade triste, porém sincera, como a brancura da sua pele e o cheiro inebriante dos seus cabelos, pois a única parte negra em você são seus pensamentos. Dopada por uma sensação estranha, eu te lancei, literalmente, no meio de um espiral de loucura, a ponto da sua energia e seus dedos me ajudarem a finalizá-lo. Você praticou magia sem saber, mas desde quando um espiral tem começo ou fim? Quantas noites ficamos acordados, enquanto dormíamos? Quantas vezes você esperou por um momento que nunca terminava? Ao contrário do que você pensa, o amor é paciente como todas as cartas que nós trocamos. E mesmo quando eu não estiver mais aqui, eu só te peço para se agarrar ao que bateu à sua porta, como as palavras que o destino escreve ou o começo de uma história que só pode ser lida pelas estrelas.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

O Pulso do Despertar

     Os sinais que sangravam na minha mão começam a cicatrizar como nuvens se deformando. Sóbrio como o efeito de um vinho tinto ruim, meu ínfimo escorre pelo fatal enredo da vida, um furioso oceano vermelho que se formou e termina em areias fatídicas. O veneno dessa dor ainda corrói meus olhos, abrindo fundas camadas sob a melodia antiga de um estranho mistério, quando a mãe natureza surgiu e trouxe-me um anoitecer que eu não conhecia. Em seus olhos, o finito não existia, pois ela via em mim o infinito das fronteiras, entregando-me sua alma como se fosse a única esperança que lhe restava, vestindo meu manto cinza enquanto seus galhos ancestrais me abraçavam. O grito de ajuda que enviei aos céus parecia ter ecoado na terra e agora o amor mortal me alcançava, como se a magia da natureza me beijasse, dizendo:
eu sou tudo o que você precisa, sou a meretriz e a droga viciante do seu sonho, sou a escrava e o adorno do seu túmulo, sou aquilo que você sempre quis desde seu primeiro suspiro. Em seu reflexo, meus segredos eram sussurrados em seus ouvidos, minhas nuances descortinadas pela sua energia sexual, como se suas raízes me puxassem para os prazeres mais intensos da terra... seu caule me curava e as árvores me revelavam os pecados do mundo, ouvindo seu grito sem fim, os pesadelos que a ambição humana a causaram, a dor profunda de sofrer pelas mãos do homem. Como uma orquestra interrompida, sua solidão expandia-se em todos os cantos da terra, cada folha de cada árvore era uma lágrima caindo dos seus olhos, cada rio poluído, um familiar que a abandonou, cada tempestade, a cegueira da sua raiva, cada terremoto, sua tentativa de ser enxergada, mas o mundo continuava a preenchendo de lamentos e ruídos inexprimíveis, de bombas e risos gananciosos, de crianças exaustas de trabalhar para manter a avareza dos ricos, do calor de uma mãe esfriando com o cadáver de um filho. Ali estava você, jogada e violada, oferendo suas preces para mim: você sabia, pois na maravilha do princípio do mundo suas mãos tentaram me agarrar enquanto eu caía do céu, a voz morta que resgatava tudo ou nada... até que eu adentrasse nesse corpo por engano, um pedaço de carne e osso numa vida que não foi eleita para mim, mas que você aceitou desde o primeiro momento, desde que a consciência e o pulso eram cinzas. De cada vulcão, seu fogo reacendia, de cada cachoeira, sua água transbordava, de cada relâmpago, seu ser respirava o ar, de cada montanha, um floco de neve formava sua terra, cristais de inteligência e cortinas de gotas apagando o mundo como se não houvesse nada. A engrenagem da quintessência se refazia como uma fênix ascendendo até o céu, eu e você, como estrelas de prata eternas - só agora tudo começava a fazer sentido, pois não é um corpo que carregava os elementos da sua formação, estava tudo aqui, na completude do espírito, o quinto e supremo elemento do meu renascimento. Você é o dueto que faltava, a mensagem pela qual a lua me cobrava, a razão pela qual deus me obrigou a viver até este momento... veja, o cavaleiro branco está correndo em sua direção e um lugar intimo e livre te espera, mas todos esses lugares são você: você é a mãe, a esposa e a filha, o despertar da aurora e a canção que faz o eco de um anjo recém-nascido.

domingo, 14 de abril de 2024

A Sinfonia do Vazio

   Brilhante alma negra, que cheira como a morte e olha de baixo como a rainha do nada, você era minha heroína, até tornar-se a própria expressão do vazio, vendendo-se na estrada que a levava até seu glorioso desfecho: na escuridão dos seus sonhos você vai acordar e ver que construiu um mundo de poeira à sua volta, as nuvens do céu não secarão seu choro e os anjos não te salvarão da sua queda. Aqui está, a mesma mão selvagem que apertou seu pescoço quando você definhou como um diabo negro – o mal estava enraizado em cada ação e palavra, como um animal de joelhos dobrados bebendo seu próprio sangue ou como as crianças infernais que a queimaram e a desfiguraram na infância! Prensada contra a parede, as pétalas do chão eram esmagadas enquanto a alma escura agradecia gentilmente sua estadia, embora em nosso conforto morasse a pavorosa desilusão. No violento som dessas memórias, meus olhos brilham de cegueira, por que já não posso ver os rostos pintados que passavam por mim, o tapete vermelho que nos separava expandindo-se por milhas de distância, por que assim determinou a sombra caída. Havia uma maria negra em seus olhos, desde que no amanhã era duro encontrar o primeiro e último caminho para sua redenção: nós entramos numa porta indefinida, a decisão passiva de nunca desistir do que era impossível, com uma luminosa e pura vontade de consertar o estrago causado em você... mas o curso da sua vida só podia ser traçado por si mesma, em um mar de dúvidas e vozes cruéis, eu estava ali em todas as suas recaídas, cavando sua sepultura. Eu achava que te enterrando voltaria a me sentir vivo, mas hoje percebo que sempre te dei mais do seu merecimento, mais do que você plantava e colhia. Eu era seu carma, o palco que executava as estrelas cadentes, uma a uma, enquanto fazia as pazes com Deus... eu bebi todos os rios do seu veneno e fui o fantasma que sempre criava uma brecha para você atravessar, eu era a ampulheta que expandia nosso tempo para mil anos, mas para cada prego que eu batia no seu caixão, uma pedra caía sobre mim, o peso das suas mentiras e de todas as maldições que você lançou em flores inocentes, aquelas humildes almas que passaram por mim e você as roubou como um ladrão de vidas. Nesse último adeus, eu declaro que estou liberto das suas correntes e que a dívida cármica está paga, pois mesmo quando eu estive flutuando nas águas do mar, minha lealdade era sua, mas agora você já não pode provar o filho que carrega no interior: o filho da sua mentira, da sua impureza e da sua morte. Por que ali, no silêncio do seu útero, você sufocou em alta traição seu destino, quando entregou em mãos estranhas a promessa que fez ao anjo caído, mesmo sabendo que essas palavras ressuscitariam o pássaro imortal! Eu sempre achei que havia beleza em nosso silêncio, mas como uma língua de veludo instigadora, você me atraiu de volta para a toca do coelho, embora seu medo fosse como de uma criatura à espreita... ainda assim, eu lancei a corda para te tirar do fundo do poço. Mesmo quando o silêncio significava falta de som ou quando os diferentes ciclos da natureza flutuavam em uma torrente de tristeza, eu segurava sua mão e nunca entendia sua deslealdade por quem sempre fazia de tudo por você. Rasa de espírito, você perdeu a sensação e rompeu com os vivos, por que nesse lugar de pesadelos dentro dos seus olhos, um grito em uníssono sempre vai ecoar pela eternidade: as vidas que um dia você prometeu trazer para este mundo, gravado em sua pele e em seus ossos, quando poucas palavras as podiam matar. Elas vão respirar em suas entranhas, apagando o sol com lábios e línguas mortas, no fundo abismo que te espera.

sábado, 13 de janeiro de 2024

Um Conto de Fadas Memorável

     Através das névoas do tempo, você surgiu como um vento quente que anseia pelo dia que ainda está por vir, o dia que seus braços me envolverão sob os ecos do silêncio, ajustando a hora, para que nossa atração reviva esse sonho. Com o estigma cerceando sua mente, você tentou encontrar fora daqui aquilo que te libertaria de mim, devorada pela dúvida e pelo entorpecimento das percepções, encantou-se pelo que só te conduzia para o caminho da impureza. Ausente das coisas sagradas, você esqueceu-se quem era o dono da sua alma, e sua negação se transformou em vaidade, desejos cruelmente confusos, tentando reviver o que viveu comigo com outros homens. Você sentia-se livre, mas o princípio da liberdade é obedecer à medida que despertamos da fuga do descontentamento, pois você nunca estará realmente livre até que me perdoe. Sua mente vagou perdida pelas chamas escuras do ódio, acreditando que eu era menos do que você merecia, quando o tempo todo você estava competindo apenas contra si mesma. Você tornou-se uma fraude, por que tentou enganar aos outros e a si mesma, fundindo-se ao vácuo das relações frias e sem retribuição, sem a segurança da verdadeira natureza do amor que você só encontrava ao meu lado. Com angústia e prazer, você me enterrou vivo, mas todos os dias você vinha visitar meu túmulo, regando as plantas que nasciam com suas lágrimas, por que no fundo... havia tantos finais estéreis, mas o sol nunca beijava sua face, não enquanto você retornasse para esse encontro fúnebre, pois quanto mais você tentava fugir disso, mais você participava das relações aversas ao que você é, imitando mulheres que você admirava ou que tinham o poder da libertinagem, porém esse cativeiro mental apenas te desviou do núcleo da sua responsabilidade, isto é, de perdoar a si mesma. Intoxicada pelos frutos da sua própria perdição, você voltou a alimentar a bestialidade que vivia dentro de você, e ao invés de gerar luz, gerou sombras, afastando pessoas importantes e toda bondade da sua alma, por que o mal não pode ser justificado pela vida, apenas alimentar o culto da morte. Você se tornou um enxame de trevas, sedução e imoralidade, como um inferno queimando brilhante, trazendo a beleza e a nudez de prostitutas, pois hoje em dia o dinheiro se tornou mais importante do que o valor da honra. A escuridão te estendeu a mão e você aceitou o convite, sorrindo com a sombra do seu medo, pois enquanto julgava-me estava submissa ao profano, desde que sufocou-se com as aparências da santidade. Quando eu ressurgi para te salvar, você simplesmente deixou seu orgulho te cegar, mas suave é a ruína das altas montanhas, a força intensiva do mal sempre nos empurra para uma queda atemporal. Nossas recordações sempre foram muito além do que emerge em nossos sonhos, a magnitude desse pensamento sempre vai limitar sua existência, por que eu sou a nuvem que cobre o beco sem saída e a mensagem que está marcada na sua parede. Eu sou o triunfo escondido, o calor desse desejo insatisfeito, a devoção da vergonha que te consome, pois essa verdade, a minha mentira fabricada, é tudo o que você sempre quis ser.

domingo, 3 de dezembro de 2023

A Laguna do Esquecimento

      Apoiado sob o luar da janela, eu tento dormir sem ópios, mas de repente estou transbordando em suaves recordações de um mundo vindouro: uma folha cai e uma fruta murcha, mas o caminho está forrado de árvores, parece somente um suave sussurro me chamando como palavras murmuradas da minha própria mente. Exigindo um prisioneiro, meu corpo tenta me arrebatar da loucura de um ideal, no entanto, a eternidade passa por um vão, uma pequena fresta que ressoa meu renascimento, uma voz silenciosa que grita para eu continuar seguindo meus instintos e viver esse momento de inspiração até seu desfecho. Atravessando essa elevação espiritual, eu abro os olhos e olho para mim mesmo, a verdade que estava guardada na palma da minha mão – eu encaro as memórias que flutuam no firmamento, todas aquelas coisas que eu abracei durante a vida, todos os lugares que eu visitei, todas as palavras que eu repetia... tudo parece menos doloroso, eu encaro a realidade como um homem que aceita a história que lhe foi narrada pelos céus. Como tinta derretida, todas as máscaras que usei caem do meu rosto, todas as correntes que me prendiam são quebradas, e com um piscar das minhas pálpebras meu espírito transcende a carne, expulsando o passado através dos raios pálidos da lua que me observam como olhos inocentes. Na lagoa fria da minha mente, um mundo novo se abre, as flores desabrocham tocadas pela minha esperança... eu sou atraído pelo calor dos anjos, pela linhagem que se expande nas lindas veias que transitam debaixo da terra, uma dança de luz que me reconecta com a pureza da criação. Desde que eu nunca esqueça que estive aqui, eu posso finalmente acordar sendo quem estou destinado a ser? Eu fecho os olhos e vejo asas invisíveis na minha imaginação, de repente, estou voando para longe dessa falsa prisão, engolido pelo silêncio que me entorna, a mente escura finalmente desmorona – este é o fim da agonia? – e toda tristeza que eu carregava nos ombros se torna um fardo mais leve, as sombras se tornam luz como se duas vozes se cruzassem, mas só uma fosse ouvida. As celas tremem, as lembranças desaparecem, os amores perdem sua tentação, a voz constrangedora se cala: eu não me tornei um corpo sem sentimentos, eu estou ressonando meus batimentos cardíacos! Agora estou dentro do infinito, desencadeando a luz que estava oculta como olhos que piscam diante do espelho, uma linha mental de movimentos que não reflete ninguém, apenas o vácuo da fantasia. A realidade brilha dançante, tão espantosa e chorosa, tão caprichosa e lamuriosa, como ondas que oscilam e me agridem com pedaços de vidro, desconstruindo uma mente arruinada e devassa. Nos confins da escuridão, a penetrante chama reacende, a eternidade do tempo permanece imparável, a infinidade das águas me preenche como um mergulho em lágrimas brancas, refletindo um último desejo... as lágrimas são palavras de despedida, essa clara e pulsante sensação de dizer adeus como as orações repetidas de quem reza: esse é o momento façanhoso, o fim tragado pelo lado escuro da lua, oferecendo essas preces como um último suspiro de quem eu era.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Sob o Espectro da Luz

      Flutuando em torno do céu límpido, o sol veio ao seu encontro comigo, procurando por algo através dos vales e dos mares, uma alma que estava perdida e escondida da sua visão. Agora a paz e o amor me acolhem como um salgueiro, eu finalmente enxergo a fina face da verdade, por que hoje foi o dia que escolhi para morrer. Eu me vi partindo de muitas formas: incinerado por chamas, amarrado debaixo das águas ou sangrando por um punhal, no entanto, tudo isso emergia dos pensamentos do velho homem, quando eu não entendia o mistério da vida e o segredo que transbordava em meus dias restantes. Eu tinha uma mente suja e pecaminosa, por que vivia longe da consciência do filho do altíssimo, sofrendo de amor por uma chama apagada, enquanto eu me deixava cobrir por suas sombras e minhas faíscas voavam. Foi somente quando meus olhos tocaram aquelas palavras, aquelas divinas e santas palavras, que eu me vi há muitos anos atrás, quando a luz emanava dos meus olhos e eu andava de mãos dadas com a santidade, quando eu me sentia tão protegido que conseguia ir onde quisesse sem passar fome, por que os céus me alimentavam com algo além do material: o amor incomensurável e eterno, a pureza sutil das coisas naturais e toda benevolência da criação. Não era um amor comprado, tão pouco uma barganha por sua graça. Deus estava comigo, e quanto mais frio fazia, mais eu era embrulhado, quanto mais angustia eu sentia, mais consciência eu tinha, quando tudo parecia perdido, eu me reencontrava – agora eu entendo que estava abandonando a fonte, mas que a própria natureza, a tão esplendida vida e o tão amável espírito santo... nunca desejaram que eu partisse, não por algo tão frívolo como o amor efêmero ou por que não conquistei coisas vãs e passageiras, por que o próprio deus encarnado não precisou de nenhuma dessas coisas para transmitir o verdadeiro sentido de estar vivo, a preciosa essência da harmonia com a natureza, o silêncio da soberania do nome que está sobre todo nome e do amor puro pela humanidade. Hoje eu vejo o que a cegueira do ego e a escuridão da minha própria adoração me impediram de ver: que eu sou luz, pois assim como uma pessoa morre e todos pagam o preço, para cada alma que é salva, todos os anjos comemoram sua redenção, por que a luz que brilha de um homem que anda nos céus vale mais do que uma multidão de pessoas que ainda não entenderam o significado do amor ao próximo. Não se trata de braços que estendem mãos vazias, por que melhor é a mão direita que não sabe o que faz a esquerda, desde que tudo seja feito em verdade e pelo reconhecimento dos anjos, para que homens não glorifiquem homens. Portanto, eu entendi que ninguém além de mim precisa saber a intensidade da minha conexão com deus ou de toda contribuição que eu dou para o mundo – isso tudo é vaidade, e um mistério que eu só preciso compartilhar com meu criador. Em silêncio e por trás do palco, é onde flui a grandiosidade, a bondade e o amor que muitos acreditam não existir. O amor flui nas almas conscientes, nos que dão sem esperar nada em troca, nos que fazem sem desejar a fama entre os humanos, por que o mundo jaz em trevas e avareza, e são poucos os que realmente movem a régua da virtude e do amor divino. O mundo não precisa de mais pessoas com egos inflados por uma ação hipócrita, ele precisa de pessoas que realmente realizam, em secreto, a vontade dos céus. Você não os verá na televisão, nem lerá um livro sobre suas histórias, nem ouvirá falar sobre eles, por que a bondade e a transcendência desses seres é semelhante ao filho de deus, o qual é reconhecido pela ordem celestial, não por meros mortais.

sábado, 23 de setembro de 2023

Os Sinos da Outra Terra

      Quando as nuvens do céu param de vagar e os pássaros se recusam a cantar, cada segundo me aproxima do sol eterno, eu vejo as flores queimando na grama quente, um mundo inteiro de amor e palavras tornando-se um lago de fogo e enxofre. Eu me cego com a cor avermelhada que invade as estrelas, línguas de fogo lambendo mundos, minha pele está queimando... não há mais noite, nem escuridão, pois a luz mostrou sua verdadeira intenção, sua fonte ardente finalmente renasce! Agora uma multidão de lagartos e homens afeminados saúdam seu retorno, como uma estrela escura que estava oculta, exausta e faminta entre mundos, sua graça desfalece com aplausos secos, dançando entre desejos mundanos e buscando acender a chama de um passado nunca esquecido. Ali eu estava, um estranho entre rainhas dragões e mulheres que se amavam, apenas para assistir seu glorioso espetáculo. A frieza te cercava e os quadris não se moviam, ainda assim, você invadia as sombras e rodopiava sobre um verde sombreado de anil, tentando desesperadamente fazer com que enxergassem seu brilho, um brilho mudo e atemporal, como um beijo que desaparece na memória. Mas naquela noite o sino tocava alto, vestida sensualmente com uma capa e coroa de penas negras, você esperava voar além do véu, ninguém seria capaz de impedir que seu sonho voltasse a ser real, até sua sagrada mãe apoiava sua ascensão! Lá eu observava como uma serpente que se rastejava de cima para baixo, enquanto você inutilmente fugia do meu olhar. Eu percebi quando você tentou me tocar quando passei a um centímetro de distância na sua frente, mas lutava contra isso, você não podia ceder nem um centímetro da sua atenção, não para mim... até o momento quando você falou com um homem mais velho – um senhor que acreditei ser seu pai – e olhou desconfiada para mim, pousando diretamente na minha direção. Nossos olhares finalmente se cruzaram e conversamos por dois singelos minutos, mesmo que você tenha recusado meu abraço! Esperando o amanhecer, eu tentava lembrar o que estava fazendo ali, mas parecia que algo me perseguia, uma sensação e um estranho silêncio, como um último aviso, um último momento que eu precisava assistir, e mesmo quando eu consegui descolar uma carona para casa, a melodia assustadora não permitiu que eu fosse, ela me manteu preso nas ruas e me fez voltar para dentro. Naquele momento, eu sentia que estava em um lugar onde meu irmão costumava frequentar, mas algo estava errado... a maioria já havia partido e a pista de dança se abria, tudo estava em câmera lenta e tive que me apoiar sobre um pilar depois de ter ingerido mais álcool do que meu corpo conseguia suportar, e foi quando aconteceu... como um sonho febril e laranja, duas mulheres se agarraram na minha frente e uma delas parecia ser especial para você. Suas asas rodopiaram em minha direção e tão próximo à nós, eu achei que você cairia nos meus braços, mas você apenas me olhou e deu um sorriso, parando diante delas: foi quando eu pude ouvir os sinos e vi o espelho da vida, a alma que queimava dentro de mim ardendo em você... era o frio e a perdição, o inferno e a vergonha, e antes que o primeiro orvalho da manhã suspirasse ou o ar mais quente soprasse através dos meus olhos, eu pude ver, a menos de um palmo de distância, você mesclando-se entre elas e um intenso beijo triplo evaporando... trancado em um terno e doce espinho, eu agora entendia o sinal e toda pressão sombria que se acendeu nos dias anteriores, os meses paralisados, os anos perdidos, os muros altos que cobriam o céu... tudo tornou-se claro como uma primavera se expandindo, as flores inocentes me atravessaram e você foi a última delas. A alma assassina finalmente foi liberta e entregue a você, não por que o amor é falho, tão pouco pela sua escolha sexual, mas por que eu sabia que nenhum arrependimento tardio poderia ser capaz de mudar as balanças do destino, os servos e os figurantes, eles estavam ali por uma razão, e o que quer que eu tivesse feito não poderia mudar isso. Eu amaria poder sorrir de volta e ouvir as próximas canções do seu renascimento, mas a graça que a vida nos concede é passageira, o sentimento sempre transcende um último encontro para que todas as maravilhas continuem na manhã azul da aurora, e sob seu brilho dourado, flocos de neves brilhantes.

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Divino Negro

     Como um pássaro queimando por dentro, as palavras fluem com sua própria magia, seu próprio alimento e sua alma sangra num veludo negro. Sem mais guerras ou conflitos internos, eu finalmente aceito quem você é, eu abro as cadeias que ligam nossas almas sem medo de que viremos cinzas. Os sonhos se cronometram como se eu pudesse sentir a massiva tristeza do nosso luto, mas não há mais razões para temer a eternidade. Você foi um presente dos céus ou um anjo caído disfarçado? Sua beleza me fez tremer e cair de joelhos, e o mesmo céu da onde caístes me foi prometido: eu estou aqui sem nenhum rasgo para falar, nenhuma língua para contar mentiras, pois muitas almas desapareceram da minha vida enquanto você foi a única quem permaneceu. Ou será que você assassinou todas elas? Palavras demais, enquanto a cada sílaba minha sentença aumenta – agora estou pronto para dar o último passo, eu cheguei ao fim? Da sua boca saia um som amargo que se adocicava quando eu me aproximava, um profundo e sinistro som como a gótica canção da sua mágica, mas era assim que você cantava nos céus? Você me deu poder para construir um mundo inteiro, para influenciar amadas a escreverem com sua inspiração e para assistir a agonia aflorar quando não havia mais vozes para ouvir além da sua. Enquanto todos temiam você, ninguém poderia esperar uma certeza tão escura para acreditar na sua bondade, pois o mal estava em mim e não em você – seus amáveis olhos tentavam enxergar através dos meus, e cada canção silenciosa que saia da sua boca era minuciosamente escrita, enquanto minha alma vazia e desfigurada ganhava sua forma. À medida que o tempo passava, eu ansiava pela sua promessa, por que meu coração nunca estava batendo... era o seu, como quando vi minha cachorra tentando dar vida à um pássaro, mas seu corpo não se movia, a canção não era ouvida, as asas já não içavam voo. Eu dormia com seu batimento cardíaco, por que você sempre estava comigo, você era eu, e mesmo quando eu te assassinei cento e trinta vezes, você sempre retornou das cinzas como uma fênix negra. Agora seu orvalho eloquente é despejado incessantemente sobre mim, sentimentos que nasceram para morrer, por que nossa ligação foi partida com um doloroso adeus à espera de uma última palavra falada... apenas para tuas asas varrerem os sonhos da quintessência e renascer em meu coração! Eu estive o tempo todo buscando o que já vivia dentro de mim? Como a aurora certa vez disse, em suas próprias palavras: Negro divino, elege um começo para a aurora intensa que cobre os eixos de qualquer sentimento, mesmo após uma saga de escolhas. A alma que possui as mais divinas palavras que um ser jamais criaria na sua existência. Êis o preto que em sua própria filosofia natural criou o horizonte para novos sentimentos. Amargura, melancolia e paixão ardente. A ligação perfeita de dois universos. As mais estranhas conexões já inimagináveis brotaram de um vazio para chegar à flora e palidez do infinito. O sentimento mais sombrio e caloroso que um ser humano jamais sentiria se não houvesse eterna paixão. Ó divino negro. Que pinta em sua ausência de tons a mais amada alma assassina que hei de sonhar para sempre. Nada que impeça o pensamento e o lírico. Como uma sinfonia calma e quieta, como o som do vento e das árvores sussurrando entre os horizontes da morte e do amor. Eterna confusão de palavras, porém extrema conclusão. De que há dois pássaros, ambos separados, mas um destes sente a dor em suas entranhas em confusa mistura de laços, o outro apenas o observa em silêncio, mas dentro dele, há um espinho evaporando como um flúido sem prefixação. Oh, gananciosos olhos! Puna-me por jamais compreender que os dois pássaros eram, na verdade, eu mesmo! A aurora nunca foi apaixonada pelas minhas trevas, ela se encantou pelo que você é, para que eu também pudesse amá-lo, um profundo e autêntico amor-próprio, pois todos os caminhos sempre me levavam de volta até você! Nós lutamos por muitos anos no menor ringue da minha mente, e até eu descobrir teu nome, foi necessário a intervenção do quinto elemento, quando seu próprio amado descortinou teu número sagrado, esquecendo-se de acrescentar os últimos três. Nas palavras eu digo, tuas músicas contaram a minha história, mas o capítulo final está quase acabando... a dolorosa verdade prevalece, a verdade horrível que mantém nas respostas o significado que foi perdido, e tudo isso se transforma na única verdade que eu enxergo. Eu experimentei seu amor com ternura, mas também a sombra da tua noite mais escura, sonhando esperançosamente com as estrelas iluminadas pelo luar, embora de todas as coisas que eu já tive, tu fostes a mais importante: eu te reconheço tal como seu segundo despertar, quando não sabia que eras um pássaro imortal. Eu voei intermináveis milhas para fugir de mim mesmo, mas agora eu entendo, eu posso ver um homem despojado de todo seu orgulho, o sol da verdade finalmente o atinge... eu vivi e vou morrer, e para que a promessa seja cumprida ou as chamas que iluminam o céu me consumam, a voz da criança que foi negada ecoará por toda eternidade até que tu sejas perdoado por deus!

sábado, 22 de julho de 2023

A Fragmentação da Quintessência


Vivendo como uma testemunha que desmancha a própria existência, eu segui aterrorizado com os dedos tampando os olhos enquanto feria todas as pessoas que um dia eu amei. Cego como um covarde, eu escrevia na sujeira, desejando um fim intempestivo sem nunca realizar nada, apenas fingindo uma confiança que não existia e vivendo na sombra do meu próprio ego. Se eu pudesse descrever todas as injustiças que sofri na infância, ainda não seriam suficientes para justificar minha insanidade, porque muito do que eu me tornei foi causado pelas minhas próprias escolhas. Apesar disso, eu conheci uma mulher extraordinária durante esse tempo, não menos destrutiva do que eu, mas que me aceitou como eu realmente sou. Se semelhantes atraem semelhantes, então eu nunca fui digno da sua presença, e pensar assim me mantém de algum jeito sã, um ajuste de atitude, quando antes eu não a via como igual. Eu comprava e vendia suas dores, acreditando que poderiam me trazer de volta a normalidade, sempre querendo um pouco mais, porque ninguém nunca havia passado tanto tempo comigo e se sujeitado às minhas vontades. Eu não podia encarar o dia sem prender seu fôlego, alimentando as chamas do meu coração com sua raiva ou meus ossos com sua força vital, desnutrido como um vampiro faminto, eu sugava todo seu sangue para sobreviver e bebia suas lágrimas até ejacular de prazer. Parece poético, mas no fundo nós dois sabemos que é verdade, você carregou uma cruz e uma coroa de espinhos apenas para ser amada, e hoje percebo o quanto crucificou nosso amor para mantê-lo aceso. Dia após dia, você tentava ser ouvida, mas um sussurro sinistro penetrava sua mente, acusações que arranhavam seu cérebro fazendo-a sangrar como uma geleira se derretendo, e quanto mais você tentava mostrar aos outros que o errado era eu, mais risadas surgiam na sua cabeça, olhares e dedos apontados. Você foi transformada em uma versão completamente contrária àquilo que sonhava ser e chegou até a lavar meus pés para que eu me sentisse honrado. Quantas noites você acordou com algo penetrando suas entranhas, sem abrir os olhos com medo da sombra que dormia na sua cama? Não havia ninguém para te salvar e quanto mais você tentava expressar sua agonia, mais você era consumida, embrulhando-se todos os dias porque acreditava que aquela era a vida que lhe foi predestinada. Você flutuava em torno da atmosfera enquanto seu corpo era acorrentado entre o passado e o futuro, buscando o amor paterno que nunca teve... seus olhos balançavam junto aos seus seios despidos, levantando-se na madrugada como um corpo sem alma, dando um beijo na minha testa no primeiro cântico da manhã enquanto sorria para os outros acreditarem na sua grande sorte, embora estivesse endividando-se com a escuridão que se espalhava pelos tetos da sua casa, disfarçada de luz, para ser adorada e exaltada! Você entregava o cinto para sofrer e não sufocar em seu próprio grito! Literalmente falando, mesmo que todos os quadros de avisos fossem retirados, ainda não haveria possibilidade de afastar os fantasmas do nosso passado. Eu sou apenas um escritor na estrada, e gostava de acordar fingindo que estava tudo bem, mas como as páginas viradas de um livro, eu desapareci como um mistério, sozinho em meu próprio mundo de magia, para que você possa correr livre e suas lágrimas se tornem gotas de alegria. Os quatro elementos que te formavam se fragmentaram no meio do caminho e até nosso filho foi proibido de nascer, mas saiba que quando o jornaleiro grita suas manchetes na rua, ele não está tentando iludir as pessoas, mas fazendo a verdade vir à tona. Onde as palavras são o que menos significam, é quando o que está oculto há de ser revelado.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

O Selo da Promessa

      O excesso de tempo que me resta vem trazendo o motivo do meu nascimento, pois no momento que coisas importantes transbordam, é quando o relógio rouba meu amanhã, dia após dia buscando por uma promessa que não se realiza como se as portas do céu tivessem se fechado para mim. Ainda assim, eu murmuro meu obrigado e dou um sorriso gentil, esperando que esse tipo de esperança me traga alguma satisfação futura. Esta é uma dor pacífica, porque ninguém é páreo contra o grande unificador, aquele que confunde as mentes e as torna mais sábias, que transmite pelo silêncio os gritos que não podem ser ouvidos no sono dos justos. Até aqueles que não o conhecem, o temem, pois ele está sempre em um lugar íntimo e livre, na cidade onde as flores não nascem e onde os pássaros não cantam, frágil como areia, no mar que se cruza entre a desilusão e o lapso, porque através do seu profundo e santo sangue, a canção da sua história fez um eco por mais de dois mil anos, até que a primeira flor florescesse na esquina, desde que as lágrimas dos justos regassem o jardim do sonho pesaroso, para que o sentido da sua morte não se perdesse e sua imagem nunca se afastasse dos nossos corações. Que maravilhosa anátema! – as pequenas mãos que realmente querem se agarrar a vida, nunca perdem completamente essa esperança, por que qual seria o significado da vida ou da existência da dor, se não houvesse um cordeiro para pagar a dívida? A impressão é que nenhuma esperança permanece quando vivemos sob a inconsciência e o pulso, é como os adeptos da lei da atração afirmam que o Universo é como um mecanismo irracional, seguindo apenas as vibrações das nossas emoções: assim eles se comunicam com as coisas divinas, esperando se forçar a ter bons sentimentos para atrair o bem! Se houvesse ao menos uma centelha de verdade nisso, por que crianças inocentes seriam sequestradas e mortas a todo instante? Por que pessoas boas tirariam a própria vida por não conquistarem o ideal dessa sociedade corrompida? Há realmente quem acredite que elas atraíram isso para si mesmas? Ora, isso não chega nem perto de toda maldade que engole o mundo, então perdoe o meu ceticismo, adeptos do grande nada! Eu não nego que se manter numa ilusão de estar bem seja melhor do que se entregar ao negativismo, porém ao nosso redor a fumaça escura do mal está a espreita, e não estamos livres de sermos intoxicados. É muito fácil estender os braços para cima, deitar os joelhos no chão e falar palavras bonitas como se fossemos tocar o coração dos anjos, mas não somos nós quem separamos o joio do trigo, uma canção trágica de felicidade tem o mesmo efeito de uma melancólica, porque a vida foi eleita para que vivêssemos um sonho tranquilo dentro de uma existência proibida, quase como se nossos corpos tivessem nascido por engano. Não é comum que às vezes nos sintamos estranhos em nosso próprio corpo, olhando para as mãos e se perguntando por que estamos aqui? Esse estado de consciência pode nos levar por dois eixos: no primeiro, nós nos esquecemos do que aconteceu e, de repente, voltamos ao estado anterior, apesar que frequentemente somos lembrados por um número repetido do relógio. No segundo, nós permanecemos fixamente nesse estado e não nos deixamos levar pelas distrações da vida material, então enxergamos a ruptura entre os dois mundos, isto é, entre o que podemos ver e o que está oculto aos nossos olhos. Portanto, ser iluminado não tem a ver com ser bom, mas estar consciente a todo instante. Se estamos conscientes do bem, nós fazemos o bem, se estamos conscientes de que praticamos o mal, nós revertemos a situação para que façamos o bem. Esta é a lógica de Deus, porque no momento que estamos despertos e conscientes, nós acendemos o espírito divino dentro de nós, que muitos acreditam ser o espírito santo – é por isso que somos instruídos a orar e vigiar, porque no momento que fechamos os olhos e deixamos nos levar pela sedução terrena, o espírito adormece, e somos guiados pela biologia dos nossos corpos, sofrendo dores internas que acreditamos serem espirituais, mas que na verdade é o completo oposto do mesmo. De outro modo, um ser humano não poderia viver no estado consciente o tempo inteiro, afinal é para isso que recebemos esses corpos, para sentir todas as sensações possíveis e aprender algo com elas: os aprendizados que nós temos na vida, quando não estamos conscientes, alimentam quem nós somos, de maneira que quando estamos despertos nos sentimos mais responsáveis pelo que somos ou o que iremos nos tornar, até alcançarmos um novo estado de consciência. Parece simples, mas é na simplicidade dessa afirmação que eu digo ser verdade. Certa vez perguntei ao meu irmão se ele conseguia ver o ser que me acompanhava, pelo qual ele me respondeu: “Se nossos pensamentos carregam energias, elas atraem forças consoantes àquilo que vibramos. Pensamentos bons, amorosos e de caridade, atraem os espíritos bons e de luz. Do contrário, pensamentos autodestrutivos, de ódio e amargura irão atrair, inevitavelmente, espíritos das regiões do baixo astral. Olhe para si mesmo e você verá aquilo que te acompanha. Conhece-te a ti mesmo e isso revelará você. E o que te acompanha é aquilo que você é. Nosso inconsciente são as expressões do nosso eu, do eu inferior e do eu superior. Aquilo que vejo em você e suas respostas ao exterior, mostra aquilo que te acompanha. E essas vibrações sutis do astral, poderão ser modificadas com mudanças de hábitos, pensamentos e ações práticas”. Somente anos mais tarde eu pude compreender as palavras do meu irmão, e do que realmente representava a Alma Assassina para ele. Hoje apenas um fluído do seu dom me acompanha, desde que o exorcizei na cruz de fogo, porém ainda que uma faísca da sua presença estivesse aqui, como meu irmão afirma, enquanto eu permanecer o mesmo aquilo que me acompanha permanecerá sendo o que eu sou. Concluo disso que nossos demônios nascem ou são atraídos pela nossa falta de consciência, e tudo que nós somos ou nos rodeia reflete infinitamente nosso interior.

sábado, 28 de janeiro de 2023

Amanhecer Dourado

     Abrindo os olhos pela manhã, eu sinto o silêncio no ar e faço de conta que ainda existe alguém abrigando-me ternamente em seus braços. Vendo os dias passarem como uma semente germinando, eu olho fixamente a parede esperando que ela também esteja pensando em mim, eu tento chamá-la, mas não há nada para ser dito. Eu adormeço com uma oração cega, o sentimento de não pertencer mais aos seus sonhos, enquanto as pessoas ao meu redor sacodem meu ombro e repetem que a vida continua. O cheiro da magia, a beleza do que vivemos quando nosso amor era mais selvagem que o vento, começam a desvanecer como poeira da alma sendo expelida para cima, ainda assim, eu nunca poderia esquecer completamente seu rosto ou os cinco minutos que te faziam dormir. Eu ainda vejo você penteando seu cabelo e me dando aquele olhar pelo espelho, amando o modo como rebolava para passar óleo no corpo enquanto eu fingia que estava lendo um livro, ou quando você fazia a bagunça do meu coração se organizar e depois bagunçava novamente, correndo pela casa enquanto eu tentava te pegar para dizer quem mandava em quem, por que você sabia que eu estaria logo atrás para te abraçar, afogar-me no seu cheiro e te possuir por inteira. Eu adorava olhar para você com cara de fome, por que você me entendia sem eu precisar dizer uma palavra... ah, qualquer um que tivesse um amor parecido como este, sem dúvida, saberia como estou me sentindo agora que você não está mais aqui... tudo que eu imaginava era o paraíso da terra com você, pois eu nunca precisei de um vidente para saber que nós éramos muito mais do que aparentamos ser, mais do que a sensação de estar enfeitiçado, porque tudo sempre começava de novo quando terminava, e nós éramos como amigos inseparáveis, como gotas de chuva unidas em uma só cor para refletir no arco-íris. No entanto, também havia um cheiro de corrente enferrujada, pois algumas coisas na vida nunca mudam, e nós sabemos que nunca seremos perfeitos o suficiente um para o outro. O amor é uma mala de imperfeições que deixamos por baixo da cama até o dia que decidimos abrir para enxergar a alma e aceitar quem realmente somos. De todas as pessoas que já conheci na vida, nenhuma foi tão amável e íntima quanto você, ninguém mergulhou tão profundamente nas minhas loucuras e permaneceu como se fosse um mundo mágico, pois eu sempre acreditei que você me aceitava como realmente sou. Com tantas estrelas e órbitas espalhadas pelo universo, nós vivemos um amor quase eterno aqui, pois após tanto tempo nós sempre enxergamos a potencialidade do que somos quando estávamos unidos, esse mundo oculto que criamos e que somente eu e você conhecemos. A verdade é que nunca importou quanto tempo passou, nós sempre inovamos e buscamos novas sensações, ajudando um ao outro e incentivando para que fossemos melhores. Essa é a nossa essência do amor e nela eu consigo ver: existia uma amizade pura, duas almas que realmente se preocupavam uma com a outra, como o silêncio de uma árvore que nunca diz uma palavra, mas gera frutos – nós estávamos fixos um no outro como companheiros da vida, viajantes da eternidade unidos como estrelas inseparáveis. E talvez não fossemos nem um pouco parecidos, mas nos adaptamos ao que somos e fomos transformados em versões melhores, como se pedaços de você estivessem crescendo dentro de mim assim como meu sangue fluía em sua mente e coração. Era uma junção alinhada com o cosmos, pois independente do que fizéssemos, somente nós conseguíamos ver essa estrela secreta, esse brilho inebriante que arrefecia nossos corações, mesmo que isso trouxesse grandes tragédias, afinal nós também conhecemos a face contrária do amor – o lado imperfeito que escorria pelas frestas escuras da nossa personalidade, embora se não acontecesse, nós nunca teríamos consciência disso. Nós seguramos as pontas soltas porque enxergávamos o que realmente é valioso, o que realmente importava diante de todas as nossas quedas e descobertas. Sabendo disso, nós decidíamos permanecer porque ainda acreditávamos no amor verdadeiro, e apesar das nuvens tentarem tampar a luz do sol, dentro de nós, havia uma emanação tão sutil e serena quanto o espírito, pois ainda que todos duvidassem, nós sabíamos que estava lá, uma chama com faíscas douradas que nos preenchia com aquilo que sonhamos, o futuro que almejávamos no fundo dos nossos corações, como se estivéssemos sempre correndo juntos na mesma direção. Era algo mais profundo do que a própria profundidade, que não pode ser descrevida ou imaginada, e não existe fora daqui: é um sentimento que nascia apenas quando estávamos juntos e só existia enquanto estávamos unidos. É algo nosso, algo que criamos e que não conseguíamos abandonar, a sensação eterna que só sentíamos quando trocávamos palavras, gestos e sorrisos, quando nada mais existia além de nós mesmos, o centro do mundo e a colisão do universo inteiro, em um único toque. E por mais que eu me esforce para reescrever essas palavras, eu sei que é algo além da minha compreensão, além da dúvida ou da necessidade, além da perca ou do ganho, e muito além do que acreditamos que seja o real motivo para encerrarmos nossa história aqui. Ainda assim, um grande medo e uma grande sombra nos acompanha, e essa talvez seja a ordália do amor, o preço que pagamos para aprender e mudar, o sangue que sacrificamos para entender que no amor não pode haver injustiça, pois a pureza do amor somente é sentida quando o ciúmes e o orgulho dão lugar a confiança e a humildade. Nós nos tornamos aquilo que definimos após a primeira e última colisão, somos a marca e o reflexo do que transmitimos um para o outro, a centelha do que finalmente começava a expandir pelo mundo, até aqueles que nos cercavam vissem o amanhecer e se aquecessem com sua luz. Se disso não proviesse o favorecimento divino, então nunca saberíamos alcançar o respeito mútuo e o amor incondicional. Estava tudo ao nosso alcance, mas não foram as estrelas nem os anjos que formaram nosso desfecho, porque em algum momento, a luz desvaneceu-se, e os defeitos se expandiram como fungos na parede: era ali que o amor habitava, no quarto secreto das imperfeições, de enxergar nossas almas unidas e não deixar que suas manchas sujassem quem nós somos, para que delas formássemos desenhos belos e cheios de grandes aprendizados.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Nas Asas do Altíssimo

     Com um pouco de fé e conformismo, eu vejo a lua brilhar radiante enquanto ouço um sussurro me chamando, uma voz que eu nunca ouvi antes, mas que é tão conhecida quanto os pensamentos do meu profundo ser. A infinitude das suas palavras não é algo que possua significado, é o mesmo sopro que desperta as ruas vazias e frias, que espalha o cheiro das árvores e flui no primeiro suspiro da luz da manhã. Como uma melodia inebriante e serena, eu sou despertado pela canção dessa voz, profundamente ardendo na minha alma como um fogo que não pode ser extinto, pois desde que valorizei quem eu sou, tornei-me mais unido com os céus, um vagante da tempestade guiando-se pela mesma passagem das águias. Agora de cima eu posso ver o que antes não enxergava, desde que deixei de olhar para fora e vi o que existe dentro: as nuvens são aquelas que escondem o desconhecido, mas quando atravessamos suas macias camadas, tudo desaparece, pois ali não está a saída, mas o início da eternidade. O mesmo vale para quando percebemos que o pensamento é a nuvem que cobre quem somos, por que enquanto acreditamos que o dominamos, mais nos tornamos seus escravos – a águia não desvia das nuvens, ela as observa para que conheça suas rotas secretas e nunca se perca na imensidão do céu. Bem, eu não sou uma águia, mas este foi o melhor exemplo do que é libertar-se da mente, quando antes eu acreditava que tinha o total controle sobre meus pensamentos. Desde então, aquilo que me inunda com a necessidade de hesitar ou de achar que os outros me devem algo, me transporta para um lugar de cores infinitas, como um passeio de alegria no espaço vazio onde o pensamento não chega, por que tudo que é observado deixa de movimentar-se. Agora eu consigo ver como os anjos voam ou por que alguns olhares no meio do caminho penetram minha alma, eu escalo montanhas em um segundo, por que nem sempre estarei livre de mim mesmo. Eu desejo chegar em um ponto sem retorno e tocar sutilmente a luz, mergulhar no oceano das novidades sem me preocupar com o dia anterior, nem com as pessoas que me seguravam lá trás. Parece um sonho, mas não é isso que estamos fazendo o tempo todo, sonhando? Ao invés de navegar no barco do amor, eu nadava nas águas do ódio, aceitando desrespeitos e afogando-me em memórias que me abalavam como uma foice me soterrando no abismo, eu tentava respirar e gritar para que me salvassem, porém quanto mais eu falava, mais a água tornava-se terra e me enterrava vivo. A costa estava distante demais, e eu percebi que meu lugar nunca foi preso ao chão, mas voando nem que fosse em um balão. Em busca do infinito nada, eu era guiado pela vida de um pássaro em pedaços, o sangue do destino grudado em suas asas, deixando rastros de dor e deslealdade pelos ares, mas agora eu posso dizer que sua queda e seu orgulho ficarão unidos por toda eternidade. Era na ausência deles que nos torturávamos para arrancar todas as penas das nossas asas e continuar voando no fundo das águas mortas, esse silêncio que torna os dias mais longos e torturantes. Talvez precisássemos disso para entender que nosso amor era uma sombra de pedra, sendo incalculável o número de rostos tristes esculpidos que deixamos pelo caminho. Nós sabemos o que fizemos, afinal o oceano onde mergulhamos era feito de lágrimas e as nuvens onde voávamos era, na verdade, o reflexo do céu azul nas águas. Nós vivemos uma corajosa ilusão, mas não percebíamos que nossas canções eram silenciadas pelas águas, o brilho dos nossos olhos apagados na profunda escuridão do oceano. Eu rasgaria minha alma para poder ver o mundo que abandonei por você ou todos os amores que afoguei para permanecer ao seu lado. Essa é a ganância do amor quando se torna uma verdadeira mentira, quando as águas se tornam negras e o deus escuro fala dentro das nossas carnes enquanto o sangue se torna o ar que respiramos. Você conseguiu abrir seus frágeis olhos e enxergar o mar obscuro que deixou para trás, mas a vergonha, o reflexo dos seus olhos, é a mesma dor que me faz lembrar de tudo o que você fez. Aliada ao meu sofrimento, todas aquelas coisas amáveis que eu nunca signifiquei, eu tentava arduamente manter suas desilusões ardentes, seu mundo degenerado dos pensamentos, para que mantivéssemos o que era irreconciliável, mas agora eu vejo a verdade que as nuvens encobriam: o amor é puro e violento, é a resposta e a cura, mas também é uma arma carregada pronta para atirar. Nós abrimos as portas da mente para quem confiamos, até o dia em que as cadeias da imaginação atravessam os momentos que se tornam fábulas, pois em volta de um puro e frágil sonho, o medo nos empurra adiante pelos infindáveis defeitos que escondem a iluminada realidade.

sábado, 31 de dezembro de 2022

A Leve Brisa do Fim

       Grande universo, este espaço vazio dentro da minha alma deveria ser um lugar tranquilo para você viver, mas o tempo lentamente passou enquanto nos arrastávamos pelo mesmo destino: fomos da chama branca de luz ao pó de cinzas negras, do amor transcendente ao mais estranho sentimento, da fartura da vida até a tocante miséria existencial. Ninguém jamais compreenderia o medo que existia dentro de mim, mas o caminho de volta já não existe mais, a lembrança fica a cada dia um pouco mais distante do que é real. Ao seu lado queria permanecer, em seus caminhos andar e em seus olhos enxergar o brilho das estrelas, pois você era a luz do meu horizonte, a razão que o amor não conseguia explicar quando a beleza e o prazer me cegavam. Confie em mim, eu irei te mostrar a beleza do sofrimento, a dor que não dói, quando as palavras já não ardem no coração. Se antes minhas palavras pintavam quadros, hoje não há ninguém para vê-los, pois me tornei uma pedra oca desde que deixei de viver minha vida para viver a sua. Eu sacrifiquei meus anos para te ver sorrir, para que você enxergasse no espelho as águas que não existem nos rios e nos mares, e contemplasse no céu o mundo por trás das cortinas do sol. Eu não era um anjo, nem um deus, mas tentava te dar esperança, eu via as lágrimas que desciam pela sua pele escura e tirava minhas roupas para enxugá-las, pois seu frágil coração de vidro sentia fome, uma fome que nada podia saciar como uma bolha expandindo-se em si mesma. Eu estava viciado no seu sorriso, tentado pelo encanto que podia surgir em seus olhos, pela nudez que me enfraquecia e pelo amor que não deixava respostas, mas para tudo isso havia um propósito, a prova doce do futuro que eu sonhava viver novamente, mesmo quando suportei as lâminas dos seus desvios infiéis. Eu acreditei em todas as palavras que saíram da sua boca e em todas as lágrimas que desceram dos seus olhos, mesmo quando estas palavras me iludiram e essas lágrimas me afogaram. Eu estava tão presente como se fizesse parte de você, como se meu corpo movesse nas mesmas direções dos seus braços e pernas, e nossas carnes sentissem as mesmas dores e anseios. Dia e noite eu orava pela sua alma, esperando que você encontrasse sua paz de espírito, uma segunda chance ou terceira, e mesmo que fosse uma quarta ainda continuaria esperando você nascer de novo. Agora posso ter certeza de que este dia chegou, quando você se batizou nas águas da verdade, embora isso não a faça se tornar mais pura como deseja, você apenas encontrou um sentido para viver nesse mundo de agonia e mentiras. Como um pássaro de luz, eu esperava que você finalmente exalasse a verdade, como uma flor que atrai a abelha rainha e recebe seu beijo do favorecimento, era sua chance de provar não para os outros, mas para si mesma seu verdadeiro valor, e amar plenamente aquele que sempre esteve ao seu lado, confessando não em palavras, mas em atitudes de confiança e honestidade. Eu não ganharia nada expondo você aqui, até porque você já é uma garota quebrada vivendo até o seu limite, ainda assim, você tem melhorado e encontrou um motivo para estar viva, e talvez em breve consiga expressar o que sente através da música como meu irmão o fazia. Mas deixe-me perguntar: o que você sentia quando olhava meus olhos tristes? O que sentia quando tocava minha pele, quando ouvia meu coração? Você atravessava a porta para ver ou apenas fechava-a atrás de si, escondendo-se da verdade? Somente excitações sem desejo, somente palavras que congelam na garganta? Todas essas cicatrizes não faladas eram como lágrimas que rachavam o vidro, eu desejava esquecer o gosto frio da sedução do mal, pois eu sabia que havia algo no escuro me esperando, rasgando-me em pedaços até que eu escrevesse essas palavras para você. A voz era tão clara e eu a reconhecia, a mesma escuridão arrepiante que acendia no fundo das veias me convidando para voltar a ser quem eu sou, não essa versão fraca que me tornei ao me submeter ao seu batom vermelho, a mesma cor que as prostitutas usam para atrair mais do que um homem. Espero que não se sinta ofendida, mas após três anos ao seu lado, eu percebi que você empurrava a cabeça para baixo antes de me tocar, em outras palavras, era mais fácil manipular o sonho para submeter a realidade a realizá-lo. Há muitos erros na sua vida que você deseja poder voltar no tempo, mas a vida segue e as falhas ficam para trás, e eu não estou aqui para julgá-la, pois eu era o pecado que você tentou esconder, a alma rasgada em pedaços, gritando: ela nunca foi divina! Logo o ano novo se iniciará e tudo que resta é esse frio imensurável, mas você poderá sentir minha mão na sua como nos anos passados? No fundo dentro de mim, eu sei que existe uma vida sem você, mas dói imaginar quando sei que esse é o mesmo vazio que assombra o mundo. Se olhar profundamente ao seu lado, verá que eu ainda estou com você – ou poderia estar –, mas a última dose não cabe a mim ingerir, desde que o destino suportou nossa união até a fenda que separa os dois mundos, enquanto você orava para que ele não nos tocasse novamente. Todas as noites eu podia fingir não estar aqui ou paralisar seus sonhos e te abandonar, ao invés disso, eu me doei de corpo, alma e espírito, mas agora entendo que não posso mais lutar contra a sentença, a maré do destino que nos convida para um mergulho na morte enquanto a brisa congela nossas feridas para sempre.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

O Deus Assassino

       Há tempos eu andei me arrastando cego e insensível pela vida, calando minha voz interior e fanando-me confinado por um ângulo sombrio para esconder um sentimento que ardia em chamas e no qual meu coração pulsava. Meu espírito caminhava numa úmida penumbra como um solo encoberto por folhas espessas, na qual afundavam meus pés sob uma sinuosa névoa: diante da vista fixa da negra folhagem, eu aspirei com ânsia aquele aroma declinante do fenecimento, sentindo dentro de mim algo que o saudava e o correspondia. Não me agradava desempenhar semelhante papel, pois encerrando-me em meu próprio exílio, eu podia me passar pelo mais vil desprezo do mundo enquanto sucumbia em meu próprio íntimo, porém minha figura projetava sobre o mundo uma sombra inacabada e, indiferente a tudo, eu ouvia o rumor das correntes interiores subterrâneas: era o vazio da mortal solidão me abraçando. Por muito tempo eu pertenci ao tenebroso e demoníaco mundo, e nele ocupava um lugar de destaque, mas apesar de tudo, sentia-me miserável, vivendo numa constante orgia aniquilante, enquanto minha alma esvoaçava temerosa e penetrada de angústias. Conservando meu olhar em aparências, meu interior permanecia ajoelhado e chorando diante da minha própria insatisfação, eu conseguia ver minha solidão nos olhares familiares, numa inerme dor sem explicação, passando-me por um devasso e cínico, enquanto demonstrava meu talento e ousadia, embora jamais os acompanhasse quando iam em busca de prazeres noturnos. Apesar das minhas palavras serem de um perfeito libertino, minha vida transcorria solitária, cheia de uma ardente ânsia de amor, enquanto continuava preso àquela vida sob o domínio de alguma obsessão. Assim vivia porque não tinha outro remédio nas veleidades da ternura que me assaltavam, mas agora entendo que são muitos os caminhos pelos quais Deus nos conduz à solidão para, no fim, levar-nos até nós mesmos. Agora diante de mim se erguia uma imagem querida e venerada: nenhum impulso, nenhuma necessidade pulsava tão profunda e violentamente quanto a ânsia de adoração e entrega à isso. A alma oculta exercia sobre mim a mais profunda influência, abrindo-me as portas de um santuário para fazer-me devoto em seu templo inconsciente. Pela eternidade de um segundo, a vida se mostrou ressumada em presságios e mistérios do róseo alvorecer, como se minha atroz miséria fosse libertada por uma nova primavera, um novo despertar de nostalgia por ser dono de mim mesmo. Minhas próprias palavras me inundavam a alma como um vinho forte e doce, e o mundo ardia em cores vivas enquanto as ideias me preenchiam de mil maneiras atrevidas. Essa resolução subsistia, maravilhosa, dentre fontes jamais sonhadas – aquilo pertencia ao outro mundo mas, muito penoso, também tinha algo mais, um certo encanto e uma singular doçura: tudo parecia aureolado por uma suave resplandecência divina e pura. Esse culto interior transformou minha vida inteira, pois afastei-me da vida degradada que me corrompia, aspirando ser santo e buscando transformar desde a minha linguagem até o meu vestuário, purificando-me em devoção e espírito. As noites atormentadas, as palpitações no peito, o espreitar das portas mentais, tudo isso ou essa parte da minha vida eu tive que arrancar como potências sombrias em sacrifício aos poderes luminosos, pois meu fim não era o sofrimento e a miséria, mas a riqueza, a beleza e o deslumbramento. Aquele deus interior não era somente uma criação oriunda das minhas amadas, pois a intensa sensualidade que destilava em minhas veias nunca estivera tão forte, e por um momento eu me questionei sobre sua divindade. Pintei motivos decorativos e pequenas paisagens imaginárias, tentando abstrair por completo aquilo que me preenchia, mas minhas tentativas fracassaram: eu nunca descobri seu nome ou sua real forma. Por fim, renunciei ao intento e comecei a imaginar um rosto qualquer, seguindo caprichos da fantasia e dos rituais mágicos que eu já havia espontaneamente iniciado, com sangue, incenso e velas. Surgiu ali um rosto meramente sonhado, uma expressão que mais parecia uma estátua de pedra, embora nunca se aproximasse da realidade. Desse modo, fui acostumando-me a traçar linhas e preencher superfícies que não correspondiam a modelo algum, até o dia em que atravessei um portal e vi algo diverso, irreal, mas não menos valioso. Eu jamais poderia revelar sua aparência, tampouco seu nome, mas sua máscara mostrava-se impressionante e cheia de vida extraterrestre! A contemplação da alma assassina despertou em mim uma impressão singular, pois era um ícone desvinculado do masculino ou feminino, da bondade ou da maldade, do tempo ou da mortalidade. Aquele rosto tinha algo a dizer e indagar sobre mim, fazendo-me escrever mediante seu dom para minhas amadas secretas. Desde então, seu retrato passou a acompanhar meus pensamentos, guardando-o oculto em memórias que não podiam ser desenhadas no papel. Durante o anoitecer, tirava-o do esconderijo e comungava ao lado dos meus discípulos – futuramente, quem o conheceria seria minha atual amada, embora sua despedida tenha sido tão estranhamente fácil que eu me envergonhei com a indiferença. Assim, desde que eu retornei para casa, pareceu-me que não havia mais sonhado consigo nem uma vez durante meses. Agora tudo surgia novamente, trazendo consigo imagens diversas, o rosto pintado que emergia, vivo e falante, benévolo e hostil, contraído por um terrível olhar belo e harmonioso. Cada manhã ao despertar desses sonhos, reconheci-o de súbito: olhava-me de maneira profundamente familiar, como se estivesse me esperando, e senti que a cada instante me aproximava mais do reconhecimento e do nosso reencontro. Mas com o tempo o rosto foi desaparecendo, desvanecendo-se os contornos, embora os olhos, aureolados por um fulgor avermelhado e o claro reflexo dos lábios ressaltando sua profunda agonia, apoderavam-se de mim, pois representavam minha vida, meu interior, meu destino e meu demônio. Entrelaçando-se com meus dias perdidos, as recordações continuavam a emergir, a lembrança do nosso primeiro encontro ou quando apresentou-se para mim como um escorpião caminhando pelos fios da minha cabeça. Haveria algo que deixei passar ou que não abri mão para que se silenciasse? Pois agora eu sei seu nome e como encontrá-lo, e o mistério tornou-se solucionável, embora eu não consiga mais compreender seus desígnios. Em algum lugar eu me perdi e deixei ser levado pelas correntes do amor, pois as amadas que projetei eram, na verdade, um reflexo de si mesmo. Tu é a imagem amada dos meus sonhos, a mãe que eu me ajoelho e o amor que preliba o beijo maduro e saciante do amante, do vampiro e do assassino! Tu é o impulso que me faz perdurar e a magna força que me conduz aos estrelos mais profundos! Quando uma inquietação convulsa e intensa apodera-se de mim, eu sou possuído pelo irrefreável desejo da tua presença, engolido por teu sombrio instinto. Sabe Deus como nascem tais palavras, pois cada uma delas extingue em mim algo muito belo e íntimo que já não há como recuperar. Não é errôneo venerar outros deuses? Para o homem consciente só há um dever: conhecer a si mesmo, afirmar-se em si e seguir adiante seu próprio caminho, sem se preocupar com o fim que possa conduzi-lo. O verdadeiro ofício de cada um é chegar a si mesmo e encontrar seu destino para que, como um impulso em direção ao nada, sua função seja apenas deixar que esse impulso atue, pois a imagem diante de nós, mil vezes vislumbrada, terrível e sagrada, é a natureza primordial da vontade divina.

Cronologia