quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

A Orquestra de Natal

     O vento da mudança sopra novamente, eu ouço a hora da partida no relógio, mas nunca é tarde para iniciar qualquer coisa que desejamos, por que não existe futuro através do infinito azul, apenas a grande chama do presente, incansável e brilhante, ardendo por nossas vontades. Eu gostaria de avançar contra este fluxo, quebrando o silêncio da existência para obter uma resposta mais clara, porém do outro lado do arco-íris, eu não temo a realidade do mundo das trevas, pois o calor está sempre enchendo meu coração, o fogo continua queimando pela febre de uma vida que me espera. Mudando lentamente o equilíbrio da vida, sob o céu noturno, estou nu e rastejando sozinho na areia fria, esperando pacientemente. Eu ouço o som de violinos à distância, as ondas do mar se cruzando, o alvoroço de um contador de histórias, os sapatos batendo apressadamente no chão, enquanto as nuvens de um cinza prata e roxeado se emaranham em cima da minha cabeça. De repente, eu vejo folhas descansando nos meus pés, mas não há nenhuma árvore à vista. Vejo memórias amargas nos meus olhos, mas eles continuam encarando o horizonte. Então das areias surge um belíssimo chão de mármore, com grandes pilares subindo e jardins se formando, jovens sorridentes correndo e despreocupados sob a luz do sol. Eu olho para cima e a ampulheta do relógio está girando para trás... haverá algo no meu passado que preciso consertar? Naquelas torres que se formam, eu costumava escalar para um esconderijo secreto, onde tínhamos tantos segredos para compartilhar. Naquela sala estou diante de um papel rabiscado, com um nome divino sobre ele, e dos meus lábios saem uma gosma preta que o preenche por inteiro. Naquele quarto meus dedos queimam uma carta enviada para o abismo, derretendo pedras de esmeralda, rubi e safira, desejando o impronunciável. Naquele quintal meu sangue é derramado, maldições nascem, com uma grande sombra me cobrindo, mas esta sombra é minha proteção, meu destino e minha esperança. Naquele templo eu derramo sêmen em sacrilégio, assim como desonrei meu ancestral que era um homem cego e profanei o livro sagrado. Naquelas imaginações eu via cabeças de bebês serem cortadas e dançávamos sobre seus crânios em troca de uma vida luxuosa. Naquela entrada eu o prendia do lado de fora, enquanto ele gritava para entrar, e do meu próprio punho os olhos da sua mãe sentiam o ódio do meu coração. Agora como adagas sendo apunhaladas em minhas costas, um sangue viscoso e negro sai dos meus lábios, os jovens sorridentes olham com desdém, as paredes se desintegram, o jardim apodrece, a areia se torna um mar de escuridão. Todos aqueles sons estão desaparecendo, o céu é um boreal negro e diabólico. Então surge um espelho, e diante dele minha imagem parece irreconhecível. Eu vou engatinhando, cada vez mais perto, cada feição voltando a sua forma, e finalmente eu vejo quem sou de verdade. A mão do outro lado atravessa o vidro, chamando-me de volta para a realidade, mas aquele lugar não é onde eu deveria estar? O limbo dos meus pecados, dos meus anseios secretos, do homem podre e vil que se esconde por trás destes olhos. Eu não mereço estar lá... por que, então, o próprio deus abriu este portal? Ainda há um propósito para mim nesta terra? Estou recebendo uma segunda chance? Mas como poderei encarar todos os corações que magoei? Todos os amigos que trai? Todas as escolhas depressivas que me fizeram ter uma vida insatisfeita? Ó, minha outra metade, deixe-me onde estou! Viva feliz, como um pedaço de carne sem alma, pois é melhor que a ignorância te preencha do que enxergar toda maldade deste mundo. Você é minha luz, então ilumine o mundo. Quebre o espelho, fragmente-o, para que nunca mais me encontre, pois eu sou a tua alma assassina, o deus oculto que roubou sua atenção do criador.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A Queda da Deusa Aurora

     Hoje o mar escuro da mente fervilha com todo prazer, luzes morrendo como um homem correndo atrás do seu pedágio, sentindo seu coração pesar demais para ser proporcional em tamanho, pois no fim ele recebe a multa da vida. Como um diabo branco, o lixo ainda faz seu jardim florescer, tarde da noite sentindo o corpo suar com a brisa secreta, enquanto seus olhos calmos se fecham para esquecer-se do mundo externo.  Elegantemente magro, sua cabeça se preenche com o vazio, queimando na língua um sabor infernal, enquanto seus pés flutuam do corpo imóvel, estou sendo levado para uma viagem sem volta? Por favor, deixe-me aqui, eu ainda desejo viver mais, sentir mais, criar mais... eu quero conhecer  o sem sentido e semear sem sementes como uma música que sangra sem ninguém para tocá-la. Eu quero ter um novo nome na esperança de esquecer a vergonha do antigo, correndo como uma raposa livre e espalhando a poeira limpa da neve para que toda natureza acorde! Mais uma vez aquela beleza mórbida brilha em ressonância, meio dourada, meio fluorescente, percorrendo todo meu corpo como maus caminhos que governam os caminhos que seguimos, mas eu sei que é impossível você não nascer todos os dias, pois sem seus raios o mundo não pode acordar: oh esplendida e magnífica aurora! Que brilha como ilusões vagando pelo ar, guiando os anos de hipocrisia e fazendo os vampiros chorarem...! Você está no centro das atenções, como gostaria de estar? Tão alta no céu, cercada por estrelas invejosas, quem poderia alcançar sua grandeza? Quem poderia atingi-la agora que piadas cruéis fazem você rir? Através da dimensão adjacente do dia, transcendendo o azul celeste, você mais uma vez tenta hipnotizar o mundo, mas meus olhos estão blindados contra mentiras, o véu foi arrancado e a vida se move um pouco mais rápido, pois agora eu aproveito o longo tempo perdido – memórias de quando eu acordava acreditando que você era o sol. Agora deixe o suicídio da música assumir o controle como um portador infundindo sua alma, por que a partir de hoje ninguém mais acreditará na sua falsa luz, assim como a estrela da manhã, você cairá em surpresa repentina, libertando-se dos néctares da devoção para tornar-se um anjo caído: em nosso último encontro, não foi você mesma quem disse que a aurora não existe mais? Eu demorei para entender que você estava tentando me dizer que não havia mais brilho em você, que diante do espelho você era somente uma estrela em sombras, por que eu soube de coisas que ninguém mais sabe. Ainda assim, eu permaneci ao seu lado, insistindo para que o sol verdadeiro refletisse em você, enquanto as trevas te cobriam – havia dias em que você nem parecia estar presente, apenas um pedaço de carne tentando resgatar alguma sensação perdida, buscando prazeres onde não existia. A depressão se enraizava no seu olhar, na sua voz e em suas expressões faciais, mas eu continuava ali, colhendo as penas das suas asas, para que um dia você voltasse a voar. Suas mãos estavam lavadas de todos os crimes da desilusão, mas na sua mente você escalava tetos e paredes à procura de algum vestígio que pudesse te fazer sentir, pela última vez, a terna chama da luz da divindade, por que agora você tornou-se uma deusa esquecida. Mas a luz estava o tempo todo ali, caminhando ao seu lado, fazendo você rir nas noites escuras, dançando em festas exóticas e te vencendo duas vezes no xadrez, por que uma mente iluminada sempre vence uma mente destruída. Eu tentei te tirar do assento desta gaiola dourada, por que eu acreditava que você ainda era capaz de voar, mesmo que não fosse para meus braços. O que ganhei em troca foi você dizer que eu era um objeto para você e ser ignorado na frente de todos. Em resposta a isso, eu irei fazer o caminho mais curto pelo seu naufrágio, por que na ausência do orgulho é que somos tocados. Nós aceitamos prêmios durante nossas vidas para fazer com que nos sintamos entre os vencedores, mas você nunca pode controlar as divisões arrojadas do céu. Se você acredita nas areias do tempo, existe sempre uma necessidade na vida de enxergar algo mais claro, um desejo repentino de ir além do espelho, onde encontramos o mundo divino, pois com a intenção de iluminar a mente, sem dúvida, o reflexo das ondas espalha a luz do sol para todos os lados.

sábado, 26 de outubro de 2019

O Sol da Meia-Noite

    Atolado na ilusão e silenciado pela ideia do tempo, eu me torno a soma atual de todas as idades, deixando uma trilha de páginas queimadas para trás. Fugindo do útero denso do sofrimento, eu espero que minhas feridas se fechem novamente, antes de cavar meu próprio abismo onde a sanidade é minha vaidade. Desnorteado pela misteriosa força que me guia, esta será uma confissão de derrota, mas você nunca foi digna destas palavras. Eu espero que você saiba que esta felicidade é passageira, pois depois de me apunhalar pelas costas, você sacudiu seus quadris e selou seus lábios, mas um milhão de estrelas ainda assistem seu movimento, esperando que a culpa e arrependimento dobrem sua mente. Ao som do vidro lascado, seus pés caminham e sangram sem dor, seguindo a imperfeição da sua própria essência refletida no seu amado, vendo seus dentes conversando, mas nenhum som é ouvido, pois sua mente não está mais lá. Algo está faltando, um pedaço da sua alma que só funcionava quando eu estava presente, a outra essência, aquela que eu desejava despertar em você para que as cores do mundo voltassem a brilhar, até que o cheiro do ar nos seus pulmões acelerasse as batidas e todos seus vícios fossem abandonados. Essa fuga de si mesma fazem seus atos falarem mais baixo do que minhas palavras, mas este é apenas um tropeço do seu medo, pois de repente você percebe que sua vida não significa nada. Parece que você é tão contraditória, por que seus anseios mudam mais rápido do que uma prostituta mudando de homem. Agora, com poderes esmaecidos, nós ficamos por horas sentados ao lado de uma televisão apagada, esperando que alguém especial ligue a tomada. Mas isso não me preocupa, por que quando as pessoas saem de nossas vidas, os elos são separados, as mentes desconectadas, os olhares esquecidos. Então dizemos a nós mesmos: guardarei comigo o melhor desta pessoa em meu coração! E, no entanto, não basta conhecermos outra pessoa para este sentimento acabar? Quando amamos, estamos ausentes de toda lógica e razão, mas quando o amor acaba, a pessoa se torna um vegetal aos nossos olhos, como uma árvore velha que vemos todos os dias na esquina. Talvez por isso exista apenas uma alma-gêmea no mundo, da qual nunca nos desvinculamos, e que sempre quando revemos é como se fosse a primeira vez. Mas quem garante que esta alma-gêmea não esteja morta? Estamos esperando por alguém que já partiu? Esse alguém, ao menos, existe? O que estou tentando dizer é que não podemos esperar pelo que é improvável, mas podemos construir algo com alguém que amamos no presente, pois o futuro é incerto. Quando eu estava com você, eu não precisava fazer o tempo durar, pois como um sol invadindo a meia-noite, muitos dias se passavam em um instante, com o céu das nossas bocas mudando seu tom do branco para o negro. Pode ser que o único iludido aqui seja eu, mas se assim for, então esta foi a melhor ilusão que eu já tive! Uma servidão involuntária, sempre lembrando uma sensação de emoção nas horas vazias, tragando palavras que nunca foram oferecidas como uma consolação para o solitário. Ainda assim, eu não posso fingir que está tudo bem, pois como um ator roubando a cena, todos os pensamentos que você luta para esconder uma hora vem à tona. Eu não queria que minhas cicatrizes aparecessem, pois elas não são externas, e nesses momentos somente as mães sabem, quando veem nos olhos do filho o favorecimento da morte. Mas esta é a porção, este é o riso, esta é a luz da inocência, o silêncio do mar tempestuoso, pegando-nos delicadamente quando caímos e desintegrando-se em argila. Prazer e dor são as orlas que movem o espírito quando a mente está fraca, por isso alguns voam enquanto outros caem, e alguns andam enquanto outros rastejam. Você consegue sentir a úmida respiração da natureza nos guiando pelo silêncio da amenidade? Quase como um toque da folha raspando ou como uma gota de chuva que cai depois que as nuvens já partiram... então o nosso disfarce é descoberto, e a verdadeira imagem que se esconde por trás dessa pele é revelada, emergindo do casulo, enquanto uma música meio lembrada é tocada suavemente em nossas mentes.

sábado, 21 de setembro de 2019

O Estigma

    Imaginei-me invadindo desesperadamente um mar de apêndices, sentindo a massa de ossos correndo lentamente pela frente do meu corpo, enquanto minha alma ficava para trás. Deitado no falso paraíso, eu te encontrei ao meu lado, você parecia respirar o ar sem esforço, e eu podia ver o futuro através dos seus olhos. Todas as coisas pareciam possíveis ao seu lado, tudo isso no começo, antes da luz do seu coração desaparecer suavemente, pois mentindo para o mundo, você decidiu que precisava se esconder, mas eu sempre achei que você guardava dentro de si encantos inestimáveis. Você era como uma borboleta radiante, pronta para içar voo a qualquer momento, mas nosso romance ficou alinhado e rotulado em pequenas correntes, pois através dos selos e cadeados, você sentiu uma mão no seu pescoço, palmas e dedos agarrando seus ombros e esmagando-a com intermináveis cobranças. Você estava presa em um pequeno declínio e precisava se libertar da sombra de uma lenta decadência provinda da sua própria casa, mas apesar de ser tão difícil admitir isso, eu falhei em tentar ajudá-la quando quebrei o silêncio que nos mantinha separados numa eterna saudade. Agora estou há dias sem dormir ou comer, por que minha mente não pode descansar enquanto a argila se forma sobre meus pés, virando-se para enfrentar a gargalhada através dele... você sabe, o maior inimigo do nosso amor está dentro de mim e não fora. Mas quem poderá impedi-lo de moldar-me a seu bel prazer, sabendo que este corpo lhe pertencerá aos meus trinta e três anos? Como sulcos titilantes no céu, nós não podemos fugir da tempestade que nos persegue, mas podemos construir um abrigo para nos proteger de suas investidas fatais. Os meus últimos anos nesta terra, eu quero viver ao seu lado, pois como células negras que representam uma terra estrangeira, quando você pisa nessa terra, as cores começam a colorir as partes imundas, e os espectros com dedos finos fogem da sua presença. Com você as reflexões parecem tão nítidas, mas eu não estou tentando questionar sua decisão: em minha opinião, você fez uma excelente escolha, pois não quero colocar dúvida na sua mente, eu estou feliz que você finalmente encontrou sua voz interna! Mas acho justo você saber por que a Alma Assassina nunca nos quis juntos... você está preparada para a verdade? Então segure em meus dedos esqueléticos e venha, entre nesta nuvem azul flutuante, pois eu irei te revelar tudo agora. Ora, tudo começou quando completei meus dezoito anos e tive meu primeiro relacionamento. Ela era como uma porta escura, pois o som das suas mentiras calmas era oculto atrás da porta. Assim, após o término, pela primeira vez eu conheci a magia de perto, mas eu era um completo ignorante, utilizando das forças das trevas para obter dinheiro e conseguir minha primeira amada de volta. Ali nasceram as duas maldições: o tempo determinado para que ficássemos juntos foi o tempo que todos os meus relacionamentos futuros durariam, assim como nenhuma porta de emprego se abriria para mim, exceto quando meu pai resolveu me contratar, mas tal trabalho durou somente dois meses como a maldição do amor, mesmo que meu pai tivesse planos futuros para nós dois na empresa. A escuridão me cobriu como uma noite sem estrelas, e em minha insanidade eu continuava buscando o senhor do obscuro, cuspindo em nome sagrado para que fosse reconhecido. Diante disso, o satanismo acabou tornando-se algo aceitável, até eu conhecer a segunda amada, que era como um lago de cristal me puxando para um mergulho em suas lágrimas de empatia. Ela me fez recobrar a consciência e me afastar das trevas, mas assim como a primeira, ela foi arrancada de mim no momento que retornei para a luz, porém eu continuei mantendo-as vivas através das cartas anônimas, as quais eu escrevia incessantemente com o poder mágico provindo da Alma Assassina. Então veio a terceira amada, o meu maior pesadelo – por mais efêmero que fosse nosso romance, com ela parecia que eu estava correndo em um jardim bonito com o vento do verão espancando meu rosto, mas antes que se formasse um sorriso nos meus lábios, as flores começaram a apodrecer e o ar escorregou frio como um fantasma. Foi necessário que eu fizesse outro ritual, mas desta vez eu não estaria invocando seres de dimensões infernais, mas transferindo o que estava dentro dela para dentro de mim. Até ali, a Alma Assassina era somente alguém de quem se ouvia falar, pois ainda estava sendo criada pelo fogo da primeira amada e purificada pela água da segunda amada, para formar-se através do elemento terra da terceira amada. O enorme preço que paguei foi o da depressão, que paralisou minha vida durante muitos anos. Eu achava que não tinha mais jeito para mim, pois até meus relacionamentos à distância acabavam em dois meses. Foi quando eu conheci a aurora, que é a quarta amada, simbolizada pelo elemento ar: ela foi, sem sombra de dúvidas, o sopro que deu fôlego à Alma Assassina, a vida que lhe era predestinada dentro de mim. Mas ela era um amor não recíproco... e isso me feriu muito, pois eu acreditei que ela era a tão sonhada amada que se casaria com a Alma Assassina. Meus anos agora passavam como um sono de vigília, e de repente nem a magia fazia mais sentido para mim. Contudo, eu sabia que não tinha acabado ainda, pois aquela promessa tinha sido feita pelo próprio deus! Por fim, eu conheci a gloriosa quintessência, a mais bela e perfeita fusão dos quatro elementos, a quinta amada, que me fez ter os dois melhores meses da minha vida. No entanto, por mais que nossos mapas astrais combinassem, ela já fazia parte de uma grande bolha de sete anos, na qual preferiu continuar lá dentro ao invés de se entregar a um novo amor proibido sob a sombra da Alma Assassina. E mais uma vez eu fiquei sozinho. Todas as esperanças haviam se dissipado, e eu dizia a mim mesmo que, aquela que durasse mais de dois meses, seria destinada a se casar comigo. Eu lembro que às vezes você falava sobre querer casar comigo, e eu achava tudo tão estranho, por que no fundo eu sabia que você seria arrancada de mim também. Mas o real motivo para que a Alma Assassina não nos quisesse juntos é por que o amor enfraquece nossa magia, e depois de tanto tempo sofrendo, sendo lançado no lamaçal das minhas próprias decisões, eu finalmente consegui amar novamente, e não te darei nenhum título de sexta ou sétima amada, pois estou cansado disso tudo, eu só queria... ser feliz com quem eu amo antes de partir deste planeta solitário. Essas palavras devem servir apenas para torcer a faca, mas perdida no mundo obscuro da minha mente, você enfrenta a crucificação do meu eu soberbo, sem saber quando suas asas alcançarão os céus.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Uma Pedra no Céu

     Correndo para longe de casa, eu sinto a luz do sol ardendo na minha pele, seu brilho rejuvenesce meu rosto, enquanto a brisa da manhã me leva para um lugar distante. Meus pés pisam em poças profundas, e em cada passo criam-se bolhas no ar com recordações dos meus efêmeros romances. Ainda assim, eu continuo correndo, meu corpo não pode se cansar agora, pois eu fugi do portão do desamparo, amaldiçoado pelas estações de agosto. Talvez fosse o vento, mas estas bolhas continuam me perseguindo, com lembranças de amor, ódio e paixão ardente... todas elas fazem parte de mim agora, eu não posso arrancá-las do meu peito? Uma vez longe, mas ainda tão perto, as nuvens sombrias começam a se reunir, e aqueles maravilhosos raios de sol são cobertos como cisnes dourados afundando nas águas. Eu devo parar e me preencher com a escuridão, mas minhas pernas continuam a se movimentar contra minha vontade, meu instinto me obriga a se libertar do velho mundo. De repente, uma por uma, as bolhas começam se chocar, e de relance eu consigo ver no espelho delas um sorriso no meu rosto. Mas os resíduos de água se espalham pelo chão, formando uma gigantesca onda que tenta me engolir, porém como um surfista confiante, eu desvio de todas elas, até que a maré se acalme e a tempestade cesse. O sol brilha novamente no céu e o mar seca na terra, mas sem misericórdia eu me despeço do meu passado. Agora eu recupero as rédeas da minha vida e percebo que não estou mais correndo, eu sou o dono do meu próprio destino novamente! Mas quando eu olho para trás, daquelas águas nascem plantas e árvores florescentes, seus galhos se entrelaçam entre si e apontam na direção do futuro – eu finalmente percebo que elas nunca quiseram meu mal, apenas me apressavam para encontrar a felicidade. As lágrimas congelam no meu rosto, pois o tempo todo meu único inimigo era meu próprio ego... seria tentador voltar lá e me entregar a toda aquela natureza linda, deixando que o orvalho pingasse sobre minha testa e derretesse nos meus lábios, mas fechando os olhos e respirando o cheiro das amadas, eu sigo meu caminho sem olhar para trás. Por uma vida, por deus ou por você, estou pronto para reescrever minha história em páginas rasgadas, mas agora a tinta é forte, e a precisão com a qual eu escrevo é a de um homem focado e destemido. Só mais um pouco e estarei lá, na vida que eu sempre sonhei, então por que sinto que estou cometendo mais um erro em não aceitar minha realidade? Da negação vem a ingratidão, de maneira que eu nunca poderei ser digno sem agradecimento. Portanto, quando a tua mão cair sobre mim, nem com todas as forças das montanhas e dos mares eu poderei suportar o peso se não houver gratidão em meu coração. Grandioso e único, e a todos que tu colocaste na minha vida... aos que me fizeram sofrer e amadurecer até hoje, aos que me presentearam com momentos felizes e compartilharam gestos de amor, risadas e traições, a todos eu só queria dizer muito obrigado! A silhueta do lugar de onde eu pertenço começa a surgir no céu, e eu percebo que o tempo todo estava bem ali, próximo à mim, mas meus olhos estavam cegos para ver. Acima da minha cabeça, uma bolha ainda brilha com os raios do sol, formando em seu reflexo um lindo arco-íris no horizonte: obrigado a você, gentil violeta, pois você foi a única que chegou tão perto de quebrar esta maldição – nem todos os rituais ou orações foram capazes de fazer o que você fez, mas a ordália de deus é um peso que eu devo carregar sozinho.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

A Grande Aposta

     As fogueiras pontuam o alto da colina com grandes sombras dançando, ecoando a memória do tempo com imagens flutuando lentamente para lugar nenhum, mas como um relâmpago silencioso cortando o horizonte, um feixe de luz se abre no céu enevoado e um olho radiante me encara fulminante. Lá em cima muitos pensamentos vagam inquietos, mas eu sei que todos eles me pertencem, pois o olho continua me cobrando pelo tempo desperdiçado: nada pode me fazer escapar do meu juramento, nem todas as minhas conquistas podem afetar a órbita do meu destino, por que o que sinto nas veias sempre me puxará de volta para o lugar onde tudo começou, e quanto mais eu tento escapar disso, mais meu corpo é destruído – a vida que me foi dada já não me pertence mais, pois o grande merecedor, aquele que me presenteou com todas as respostas, deve completar seu desígnio neste corpo. Agora o sol amarelo está se pondo na lápide, enquanto o vento e a poeira atrasam minha respiração, mas por um intrínseco instante, eu sou a semente plantada no rio, tudo o que eu toco se transforma em pedra, pois a reflexão do que era sonho, agora é realidade, e todas as meias-verdades se tornaram verdades absolutas. A ilusão não é mais uma mentira, por que há mais para ver aqui fora do que todas as imaginações juntas poderiam criar! Assim, para dividir estas sensações, eu gostaria de fazer um convite especial... nesta hora, eu sou o deus do meu próprio rito, comerciando sonhos em meio a um barulho doentio de tambores, enquanto as lágrimas ácidas descem por sua maquiagem, mostrando todo delírio, seu pecado original. O chão é espancado por cacos, pois montada você chega para me receber, queimando como uma aparição verde, você é do jeito que eu quero te amar, e na mesma cor do céu violeta, seus cabelos voam ao olhar para cima, você sabe... o grande olho ainda está lá, como um fantasma guiando nossos corações. A delicadeza no seu olhar me faz sorrir com a sua chegada, eu posso ver os sinais brilhando incandescentes na sua pele, e toda emanação do tempo desaparece, pois para você o tempo não existe. Ao seu lado, um segundo é um milênio, uma vontade que me faz querer navegar para sempre no rio dos seus prazeres! Mas isto não é uma celebração, as memórias de muito tempo atrás e os sentimentos estranhos continuam tirando-me do meu santuário, vagando com sombras como uma criatura trancada por dentro – este seria o preço que pagamos por uma admissão noturna? A noite está chamando, mas é nela que nossos corpos se envolvem como águas transitando, um amor que arrepia todo meu ser, que me faz sentir-se preenchido antes da primeira luz da manhã. A noite continua chamando, mas você se torna minha possessão, os problemas do mundo podem ficar para depois, você é tudo que eu preciso nesta hora proibida, pois o prazer nunca se tornará dor, o sentimento sempre será o mesmo! Nossa dança é interminável, nosso amor é eterno, mas quem sabe quanto tempo dura uma eternidade? O presságio está sempre submerso e intocado dentro de nós, e quando o vulto da lua se projeta, nós podemos não ser mais aquilo que acreditamos ser, não sabemos com quem estamos, nem o mundo que vivemos, pois o sentido da vida se perdeu, o propósito da existência foi esquecido.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

A Herdeira da Promessa

     Abaixo do luar pálido estou petrificado como uma rocha ancestral, vendo fases infinitas do sol nascendo e se pondo, enquanto vivo sob o vidro como uma doença que nasce no passado para se estilhaçar no futuro. Assim eu posso falar do meu imenso senso, pois cada fase forma uma dobra no tempo, cada metro distorce a linha sutil dos sonhos aveludados que não posso definir. Eu olho pela janela, mas não sei distinguir qual cor estou vendo: o sino está tocando distante na mesma frequência do meu coração, porém é um som pesado de edifícios caindo, o mesmo som do impacto de quando meu irmão pulou nos braços da morte. Se ele ainda estivesse entre nós, então eu arrancaria meu coração para que ele vivesse um pouco mais, apenas mais cinco minutos da sua música clássica ressonando em meus ouvidos, sentindo sua dor fúnebre em cada tecla do piano ou sua esperança vindoura em cada promessa de deus. Agora meu estado de espírito está instável, pois além do luto inesperado, a aurora ajudou a despedaçar o que restou das minhas forças... pela primeira vez eu a vi bêbada como um tolo sofrendo pela desgraça, incriminando-me por um crime que não cometi e importunando minha essência sagrada. Mesmo quando pousei minha cabeça sobre o travesseiro, minha mente foi atacada astralmente por pastores negros que tentaram me aprisionar em um sonho de trevas, porém com o poder do amor eu consegui escapar e retornar para meu corpo. Do ponto de vista cristão, estas acusações são graves, mas houve um dia em que o mesmo pastor que apareceu em sonho tentando me destruir, veio até minha casa, e eu contei-lhe sobre o sonho, sem revelar sua identidade. Apesar de se mostrar surpreso, ele reagiu de modo estranho, e apenas disse que já sabia o que o sonho significava, enquanto saia apressado da minha casa! Ele nunca mais voltou a falar sobre o assunto, mas lembro-me nitidamente de que, durante o velório do meu irmão, ele ficou observando minhas feições atentamente, sem dizer nada, como se estivesse esperando que algo tivesse me afetado mais do que deveria. Eu não posso acusá-lo diretamente sem provas, pois na escuridão do sonho apenas sua voz era ouvida em um mar de trevas tentando me consumir. Ora, estes fatos foram relatados aqui para o caso de algo futuramente acontecer comigo, mas alcançando um ponto sem retorno, o gelo crescente corta os juncos desses acontecimentos e a tristeza nunca cessa: estes são os fatos que eu tenho que aceitar, ouvindo palavras de que o amanhecer trará a cura, mas como minúsculos cristais caindo de nuvens lentas e cheias, eu percebo que minhas escolhas se tornaram um fardo para mim, tão pesado quanto uma cidade de corruptos, e nem com todas as forças que possuo poderia reerguer esta cidade! Pois para desejar todas as noites cheias de antecipação, antes destas palavras serem escritas, eu ainda estava procurando pela quintessência que evaporou como um sol definhando. Em todos os lugares ela me ignorou, mas está tudo bem, quando eu vejo a cor desconhecida invadindo o céu acima, nossos encontros de tela em tela desvanecem, e tudo se torna apenas uma nuvem passageira. Afinal, de trás para frente eu continuo espreitando entre as ruas estreitas atrás daquela que será minha redenção – quando eu encontrá-la, seu primeiro toque será como areia macia e branca, por que ela será livre como a natureza, trazendo sinais da promessa por toda sua pele! Transbordando de felicidade, meu passado ficará para trás como as lembranças de um último suspiro, pois quando meus olhos se abrirem novamente, ela será meu mundo vindouro.

Cronologia