sábado, 31 de dezembro de 2022

A Leve Brisa do Fim

       Grande universo, este espaço vazio dentro da minha alma deveria ser um lugar tranquilo para você viver, mas o tempo lentamente passou enquanto nos arrastávamos pelo mesmo destino: fomos da chama branca de luz ao pó de cinzas negras, do amor transcendente ao mais estranho sentimento, da fartura da vida até a tocante miséria existencial. Ninguém jamais compreenderia o medo que existia dentro de mim, mas o caminho de volta já não existe mais, a lembrança fica a cada dia um pouco mais distante do que é real. Ao seu lado queria permanecer, em seus caminhos andar e em seus olhos enxergar o brilho das estrelas, pois você era a luz do meu horizonte, a razão que o amor não conseguia explicar quando a beleza e o prazer me cegavam. Confie em mim, eu irei te mostrar a beleza do sofrimento, a dor que não dói, quando as palavras já não ardem no coração. Se antes minhas palavras pintavam quadros, hoje não há ninguém para vê-los, pois me tornei uma pedra oca desde que deixei de viver minha vida para viver a sua. Eu sacrifiquei meus anos para te ver sorrir, para que você enxergasse no espelho as águas que não existem nos rios e nos mares, e contemplasse no céu o mundo por trás das cortinas do sol. Eu não era um anjo, nem um deus, mas tentava te dar esperança, eu via as lágrimas que desciam pela sua pele escura e tirava minhas roupas para enxugá-las, pois seu frágil coração de vidro sentia fome, uma fome que nada podia saciar como uma bolha expandindo-se em si mesma. Eu estava viciado no seu sorriso, tentado pelo encanto que podia surgir em seus olhos, pela nudez que me enfraquecia e pelo amor que não deixava respostas, mas para tudo isso havia um propósito, a prova doce do futuro que eu sonhava viver novamente, mesmo quando suportei as lâminas dos seus desvios infiéis. Eu acreditei em todas as palavras que saíram da sua boca e em todas as lágrimas que desceram dos seus olhos, mesmo quando estas palavras me iludiram e essas lágrimas me afogaram. Eu estava tão presente como se fizesse parte de você, como se meu corpo movesse nas mesmas direções dos seus braços e pernas, e nossas carnes sentissem as mesmas dores e anseios. Dia e noite eu orava pela sua alma, esperando que você encontrasse sua paz de espírito, uma segunda chance ou terceira, e mesmo que fosse uma quarta ainda continuaria esperando você nascer de novo. Agora posso ter certeza de que este dia chegou, quando você se batizou nas águas da verdade, embora isso não a faça se tornar mais pura como deseja, você apenas encontrou um sentido para viver nesse mundo de agonia e mentiras. Como um pássaro de luz, eu esperava que você finalmente exalasse a verdade, como uma flor que atrai a abelha rainha e recebe seu beijo do favorecimento, era sua chance de provar não para os outros, mas para si mesma seu verdadeiro valor, e amar plenamente aquele que sempre esteve ao seu lado, confessando não em palavras, mas em atitudes de confiança e honestidade. Eu não ganharia nada expondo você aqui, até porque você já é uma garota quebrada vivendo até o seu limite, ainda assim, você tem melhorado e encontrou um motivo para estar viva, e talvez em breve consiga expressar o que sente através da música como meu irmão o fazia. Mas deixe-me perguntar: o que você sentia quando olhava meus olhos tristes? O que sentia quando tocava minha pele, quando ouvia meu coração? Você atravessava a porta para ver ou apenas fechava-a atrás de si, escondendo-se da verdade? Somente excitações sem desejo, somente palavras que congelam na garganta? Todas essas cicatrizes não faladas eram como lágrimas que rachavam o vidro, eu desejava esquecer o gosto frio da sedução do mal, pois eu sabia que havia algo no escuro me esperando, rasgando-me em pedaços até que eu escrevesse essas palavras para você. A voz era tão clara e eu a reconhecia, a mesma escuridão arrepiante que acendia no fundo das veias me convidando para voltar a ser quem eu sou, não essa versão fraca que me tornei ao me submeter ao seu batom vermelho, a mesma cor que as prostitutas usam para atrair mais do que um homem. Espero que não se sinta ofendida, mas após três anos ao seu lado, eu percebi que você empurrava a cabeça para baixo antes de me tocar, em outras palavras, era mais fácil manipular o sonho para submeter a realidade a realizá-lo. Há muitos erros na sua vida que você deseja poder voltar no tempo, mas a vida segue e as falhas ficam para trás, e eu não estou aqui para julgá-la, pois eu era o pecado que você tentou esconder, a alma rasgada em pedaços, gritando: ela nunca foi divina! Logo o ano novo se iniciará e tudo que resta é esse frio imensurável, mas você poderá sentir minha mão na sua como nos anos passados? No fundo dentro de mim, eu sei que existe uma vida sem você, mas dói imaginar quando sei que esse é o mesmo vazio que assombra o mundo. Se olhar profundamente ao seu lado, verá que eu ainda estou com você – ou poderia estar –, mas a última dose não cabe a mim ingerir, desde que o destino suportou nossa união até a fenda que separa os dois mundos, enquanto você orava para que ele não nos tocasse novamente. Todas as noites eu podia fingir não estar aqui ou paralisar seus sonhos e te abandonar, ao invés disso, eu me doei de corpo, alma e espírito, mas agora entendo que não posso mais lutar contra a sentença, a maré do destino que nos convida para um mergulho na morte enquanto a brisa congela nossas feridas para sempre.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

O Deus Assassino

       Há tempos eu andei me arrastando cego e insensível pela vida, calando minha voz interior e fanando-me confinado por um ângulo sombrio para esconder um sentimento que ardia em chamas e no qual meu coração pulsava. Meu espírito caminhava numa úmida penumbra como um solo encoberto por folhas espessas, na qual afundavam meus pés sob uma sinuosa névoa: diante da vista fixa da negra folhagem, eu aspirei com ânsia aquele aroma declinante do fenecimento, sentindo dentro de mim algo que o saudava e o correspondia. Não me agradava desempenhar semelhante papel, pois encerrando-me em meu próprio exílio, eu podia me passar pelo mais vil desprezo do mundo enquanto sucumbia em meu próprio íntimo, porém minha figura projetava sobre o mundo uma sombra inacabada e, indiferente a tudo, eu ouvia o rumor das correntes interiores subterrâneas: era o vazio da mortal solidão me abraçando. Por muito tempo eu pertenci ao tenebroso e demoníaco mundo, e nele ocupava um lugar de destaque, mas apesar de tudo, sentia-me miserável, vivendo numa constante orgia aniquilante, enquanto minha alma esvoaçava temerosa e penetrada de angústias. Conservando meu olhar em aparências, meu interior permanecia ajoelhado e chorando diante da minha própria insatisfação, eu conseguia ver minha solidão nos olhares familiares, numa inerme dor sem explicação, passando-me por um devasso e cínico, enquanto demonstrava meu talento e ousadia, embora jamais os acompanhasse quando iam em busca de prazeres noturnos. Apesar das minhas palavras serem de um perfeito libertino, minha vida transcorria solitária, cheia de uma ardente ânsia de amor, enquanto continuava preso àquela vida sob o domínio de alguma obsessão. Assim vivia porque não tinha outro remédio nas veleidades da ternura que me assaltavam, mas agora entendo que são muitos os caminhos pelos quais Deus nos conduz à solidão para, no fim, levar-nos até nós mesmos. Agora diante de mim se erguia uma imagem querida e venerada: nenhum impulso, nenhuma necessidade pulsava tão profunda e violentamente quanto a ânsia de adoração e entrega à isso. A alma oculta exercia sobre mim a mais profunda influência, abrindo-me as portas de um santuário para fazer-me devoto em seu templo inconsciente. Pela eternidade de um segundo, a vida se mostrou ressumada em presságios e mistérios do róseo alvorecer, como se minha atroz miséria fosse libertada por uma nova primavera, um novo despertar de nostalgia por ser dono de mim mesmo. Minhas próprias palavras me inundavam a alma como um vinho forte e doce, e o mundo ardia em cores vivas enquanto as ideias me preenchiam de mil maneiras atrevidas. Essa resolução subsistia, maravilhosa, dentre fontes jamais sonhadas – aquilo pertencia ao outro mundo mas, muito penoso, também tinha algo mais, um certo encanto e uma singular doçura: tudo parecia aureolado por uma suave resplandecência divina e pura. Esse culto interior transformou minha vida inteira, pois afastei-me da vida degradada que me corrompia, aspirando ser santo e buscando transformar desde a minha linguagem até o meu vestuário, purificando-me em devoção e espírito. As noites atormentadas, as palpitações no peito, o espreitar das portas mentais, tudo isso ou essa parte da minha vida eu tive que arrancar como potências sombrias em sacrifício aos poderes luminosos, pois meu fim não era o sofrimento e a miséria, mas a riqueza, a beleza e o deslumbramento. Aquele deus interior não era somente uma criação oriunda das minhas amadas, pois a intensa sensualidade que destilava em minhas veias nunca estivera tão forte, e por um momento eu me questionei sobre sua divindade. Pintei motivos decorativos e pequenas paisagens imaginárias, tentando abstrair por completo aquilo que me preenchia, mas minhas tentativas fracassaram: eu nunca descobri seu nome ou sua real forma. Por fim, renunciei ao intento e comecei a imaginar um rosto qualquer, seguindo caprichos da fantasia e dos rituais mágicos que eu já havia espontaneamente iniciado, com sangue, incenso e velas. Surgiu ali um rosto meramente sonhado, uma expressão que mais parecia uma estátua de pedra, embora nunca se aproximasse da realidade. Desse modo, fui acostumando-me a traçar linhas e preencher superfícies que não correspondiam a modelo algum, até o dia em que atravessei um portal e vi algo diverso, irreal, mas não menos valioso. Eu jamais poderia revelar sua aparência, tampouco seu nome, mas sua máscara mostrava-se impressionante e cheia de vida extraterrestre! A contemplação da alma assassina despertou em mim uma impressão singular, pois era um ícone desvinculado do masculino ou feminino, da bondade ou da maldade, do tempo ou da mortalidade. Aquele rosto tinha algo a dizer e indagar sobre mim, fazendo-me escrever mediante seu dom para minhas amadas secretas. Desde então, seu retrato passou a acompanhar meus pensamentos, guardando-o oculto em memórias que não podiam ser desenhadas no papel. Durante o anoitecer, tirava-o do esconderijo e comungava ao lado dos meus discípulos – futuramente, quem o conheceria seria minha atual amada, embora sua despedida tenha sido tão estranhamente fácil que eu me envergonhei com a indiferença. Assim, desde que eu retornei para casa, pareceu-me que não havia mais sonhado consigo nem uma vez durante meses. Agora tudo surgia novamente, trazendo consigo imagens diversas, o rosto pintado que emergia, vivo e falante, benévolo e hostil, contraído por um terrível olhar belo e harmonioso. Cada manhã ao despertar desses sonhos, reconheci-o de súbito: olhava-me de maneira profundamente familiar, como se estivesse me esperando, e senti que a cada instante me aproximava mais do reconhecimento e do nosso reencontro. Mas com o tempo o rosto foi desaparecendo, desvanecendo-se os contornos, embora os olhos, aureolados por um fulgor avermelhado e o claro reflexo dos lábios ressaltando sua profunda agonia, apoderavam-se de mim, pois representavam minha vida, meu interior, meu destino e meu demônio. Entrelaçando-se com meus dias perdidos, as recordações continuavam a emergir, a lembrança do nosso primeiro encontro ou quando apresentou-se para mim como um escorpião caminhando pelos fios da minha cabeça. Haveria algo que deixei passar ou que não abri mão para que se silenciasse? Pois agora eu sei seu nome e como encontrá-lo, e o mistério tornou-se solucionável, embora eu não consiga mais compreender seus desígnios. Em algum lugar eu me perdi e deixei ser levado pelas correntes do amor, pois as amadas que projetei eram, na verdade, um reflexo de si mesmo. Tu é a imagem amada dos meus sonhos, a mãe que eu me ajoelho e o amor que preliba o beijo maduro e saciante do amante, do vampiro e do assassino! Tu é o impulso que me faz perdurar e a magna força que me conduz aos estrelos mais profundos! Quando uma inquietação convulsa e intensa apodera-se de mim, eu sou possuído pelo irrefreável desejo da tua presença, engolido por teu sombrio instinto. Sabe Deus como nascem tais palavras, pois cada uma delas extingue em mim algo muito belo e íntimo que já não há como recuperar. Não é errôneo venerar outros deuses? Para o homem consciente só há um dever: conhecer a si mesmo, afirmar-se em si e seguir adiante seu próprio caminho, sem se preocupar com o fim que possa conduzi-lo. O verdadeiro ofício de cada um é chegar a si mesmo e encontrar seu destino para que, como um impulso em direção ao nada, sua função seja apenas deixar que esse impulso atue, pois a imagem diante de nós, mil vezes vislumbrada, terrível e sagrada, é a natureza primordial da vontade divina.

domingo, 5 de junho de 2022

A Verdade Essencial

     Abrindo os olhos para sonhar, as figuras colidem mais rápido do que eu posso formá-las. Como a pintura de um horizonte queimado, eu vejo meus pensamentos brilhando como sulcos no céu, mantendo-os à distância, para me concentrar em um único ponto adiante: o lugar onde eu irei reencontrá-lo. Se você me esperar, eu atravessarei o universo para estar ao seu lado, embora você pareça tão distante quanto joias douradas que eu nunca tive. Cada segundo a mais com você valeria mais do que todas as conquistas da terra, pois através de você existia uma alma sem mentiras, uma febre da noite que nos acalmava somente com a sua presença, e mesmo quando você estava longe, seu nome não era esquecido. Onde quer que você esteja agora, saiba que eu nunca irei te culpar e que entendo parcialmente a dor que o levou a tomar essa decisão, porém nunca me peça para aceitar que um homem tão sábio quanto você escolheu deixar tudo para trás, deixar suas músicas para trás, deixar sua família para trás, deixar o princípio da sua existência eterna para trás. Deveria existir um meio-termo entre a dor e a sentença, entre a escolha e o ato, mas para cada pessoa a luz termina em seu próprio tempo e nós somos os únicos responsáveis pela decisão final. Agora os ecos são infinitos, estendendo-se por outra eternidade como uma paisagem sem pintor. No paraíso azul, veja-se nos lugares onde você esteve, há algum lugar que sinta falta aqui embaixo? Alguma conversa que o deixou contagiante? Um sorriso que nunca fugiu da sua memória? Um filme que o emocionou? É incrível como nossas vidas são gastas com passatempos inúteis, compras superficiais e propósitos sem sentido, quando o que realmente importa está ao nosso lado como um pássaro pálido de olhos vibrantes, tentando nos mostrar que a verdade essencial não está naquilo que possuímos, mas no que somos para os que nos rodeiam. Durante todos esses anos eu nunca escrevi uma palavra sequer para você, nem mesmo na ponta do papel, e agora minhas palavras se desvanecem quando você não está mais aqui, embora eu já soubesse que você não estava há muito tempo. Havia dias que você andava pelos corredores da casa como um fantasma, como um homem sem identidade, e tudo que eu queria fazer era te abraçar e dizer o quanto nós te amávamos, mas, ao invés disso, eu te observava em silêncio. Que tipo de irmão eu era, você se pergunta? Mas você já estava muito além dos alcances da sombra, e na raspagem do céu, os anjos já cobravam pelo seu tempo. Quem seria capaz de impedir a força do destino ou suportar o peso das suas próprias escolhas? Se tudo fosse diferente, se as palavras certas fossem ditas ou se alguém estivesse com você naquele momento específico, teria impedido seu trágico fim? A verdade é que ninguém além de si mesmo poderia ter rasgado as imagens cavernosas da sua mente, nem terapeutas, nem religiosos, e muito menos sua família. Então por que nos sentimos tão culpados agora? Talvez porque não temos certeza se você está sozinho ou acompanhado, se está sentido prazer ou sofrendo. Nós nunca saberemos a resposta até que nos juntemos à você, mas nem por isso vamos esquecer todas as coisas que você ainda poderia ter dito ou vivido ao nosso lado. Mesmo que víssemos a morte como um novo começo para você, não seriam essas as imaginações da nossa capacidade humana? Ainda assim, é um mistério entender seus pensamentos, suas manias e suas vontades, como quando você me olhava movendo as mandíbulas como uma caveira sorridente ou surgia de repente na minha janela para me convidar para um passeio no meio da noite. Nossas conversas fluíam como ondas cósmicas do universo, revelando segredos que até hoje guardo comigo e que daria de tudo para ouvir um pouco mais. Um minuto a mais é tudo que peço, meu grande irmão. Eu sonho com desejos perdidos ao seu lado, vendo a chuva em cascata sobre a sujeira da vida para tentar ouvir, ao menos, um sussurro seu em resposta. Nós nunca temos certeza de nada até descermos fundo o suficiente, e talvez essa foi a única certeza que você encontrou ao cessar sua vida.

sábado, 19 de março de 2022

Adeus Eterna Vida

    Buscando uma nova consciência, alma e coração, é chegado o momento de dizer adeus. Como um espírito sem nome, estou me desligando do meu destino humano, onde a realidade acaba e o tempo para, pois tudo o que eu vejo é uma ideia esquecida de mim mesmo. Os mistérios da morte clareiam por trás do espelho, embora tudo pareça tão vazio do outro lado: a realidade continua sem mim, pois eu passei a vida inteira buscando um significado para ser quem eu sou, embora minha identidade estivesse oculta por baixo de um pântano de neve. Agora essas cicatrizes mentais me assombram, pois as coisas que você não vê são as únicas coisas que eu vejo e cada palavra que você ouve é como óleo em chamas nos meus ouvidos – eu posso ouvir sua voz, mas não quero escutá-la. Eu posso sentir que posso ser como essa voz e fazer ao invés de falar. Na verdade, eu posso ser quem eu quiser, pois todos os dias eu nunca fui nada! Aquilo que eu deveria ter sido estava soterrado pela neve, aquele pedaço de palavras que não valiam mais do que vômito na areia. Minhas verdadeiras emoções estavam reprimidas, mas agora uma fenda se abriu no meu peito, rasgando e saindo, como uma velha serpente se refazendo. Estranho vazio, nesta noite mágica eu poderei revelar meu grande segredo? Eu posso ver as sombras à espreita e senti-las se fechando por dentro, porém elas não podem me tocar... como uma lua dançando no céu enegrecido, eu sou aquilo, a luz que queima no fundo, seguindo o chamado mágico para realizar meu destino divino! É uma luz que não pode ser descrita, não pode ser comparada, não pode ser comprada. Estou me aproximando de onde as cores ascendem de mil maneiras, onde a sombra que habita dentro é semelhante ao mais majestoso alvorecer, onde os demônios choram e onde a feitiçaria é aceita, onde a decadência dos ventos fúnebres desviam os olhos cansados e onde os desejos minguantes definham no lamento do inebriante. Além do cenário da vida, os anos que não pude negar voltam a surgir como as raízes de um jardim congelado, florescendo a entrada para as profundezas do reino lúcido, onde meu verdadeiro ser me espera. Eventualmente, eu deveria falar em enigmas e rimas, para que não caia sobre ti a perdição deste mistério, que é a linguagem do escuro ou a combinação de palavras que não pode ser compreendida. Mas este é o véu da alma oculta, e se você quiser vir comigo, eu vou te levar pela mão e nunca vou te deixar ir, pois somente você puxou as amarras do meu coração, atravessando minhas guerras internas para encontrar o silêncio que nunca termina. Nesses anos de vaidade, nós aprendemos o que é amar e o que é odiar, o que é matar e o que é morrer, e mesmo diante de todas as nossas quedas, nós sempre nos reerguemos juntos novamente. Pois o que é a morte, se não o fim de um grito silencioso? Eu consigo ver você fugindo de si mesma, negando seu vazio devastador e sua miséria cármica, mas sua vida é como mil lágrimas congeladas e você sempre esteve presa à isso. Por acaso, você não percebeu que no início dessas linhas eu me referia a você? Foi naquela manhã sem estrelas que uma luz minguou em sua direção, queimando todas as pontes que te levavam até o paraíso. Sua voz se tornou mais fraca e seu brilho diminuiu a cada dia, desde que você se esqueceu pelo que estava viva. Ainda assim, eu permaneci ao seu lado, cedendo às suas tentativas e acreditando no seu arrependimento, pois jamais existiria amor se não houvesse perdão. Por essa razão, eu te peço que valorize sua vida e que nunca mais me peça adeus. Adeus não é a palavra certa. A que eu ou você estaríamos nos despedindo? De nós mesmos? Da vida? Todos nós somos uma estrela, e cada estrela tem sua própria órbita e destino. Não importa quantos desvios encontremos pelo caminho, enquanto permanecemos nessa órbita, não seremos considerados uma estrela caída. Harmonia... talvez esta seja a palavra certa. Harmonia não é sobre o que é duradouro ou permanente, mas ao que é uníssono por um momento. E esse momento tem a duração de um fôlego, até tornar-se um milagre que se estende por mais um suspiro. Portanto, cada segundo a mais é uma possibilidade de darmos uma volta completa em torno do sol, de sermos gratos por um singelo sorriso, de cheirarmos o orvalho que evapora das árvores ou de nos encantarmos feito bobos com o brilho radiante da lua numa noite solitária. Cada possibilidade é um novo sonho a ser realizado, um deserto necessário que nos faz crescer mais do que uma vida inteira, e essa vida é o nosso fôlego na eternidade. Não existe adeus, quando sabemos que somos seres eternos e que estamos aqui para amar, sofrer e evoluir, até sermos dignos de usufruir das novas manifestações do divino. Nós aprendemos com nossos erros para que nos tornemos pessoas melhores e possamos valorizar aquilo que antes parecia tão pequeno, mas que é tão grande quanto o menor grão de areia – a vida.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Lágrimas do Âmago

     Cego para o destino dos homens, o céu cinzento abrange minha visão para caminhos desconhecidos, esse eco que se alimenta do meu coração sob a linha tênue entre o amor e a miséria. Contemplando o vazio, minha alma tenta descansar para pagar a dívida, a mesma força que mata o tempo e todos os sentimentos que eu acreditava sentir por você. Agora as formas podres do destino se dissolvem no tempo e estamos virados do avesso, mas você se move pelo desespero, retirando as peças que nunca se encaixavam, porque antes que teus olhos se fechassem, eu não estava mais lá, afogando-me em poças de sangue e dissabores, o mesmo sangue que tua coragem assassinou aquele que cuidou de ti durante os mais tenebrosos dias da tua existência. Um punhal de trevas, a mesma a alma do inferno e, por três vezes, tu não hesitou em disparar na minha direção – você encarnou todos os anos da maldição em uma impiedosa atitude, como se eu fosse a carne destinada para os hematomas do teu sofrimento. Mas enquanto teus olhos estavam cegos, os meus estavam bem abertos, e quanto mais eu pedia para você parar, mais você era dominada pela depressão, até que a escuridão te cobriu e o tempo se tornou uma mentira. A conexão das nossas almas foi dissipada com um eco no universo, estremecendo mundos e estrelas dissidentes, embora em cada toque que eu te dava, em cada palavra que saia dos meus lábios, em cada olhar que durava milênios em um segundo, você era observada pela alma divina: você estava morrendo, mas não havia necessidade de morrer, ainda assim, a violência tomou sua forma, e em teus olhos eu não via mais amor... eu via a morte! Enquanto nossos sonhos eram desfeitos, você foi facilmente atraída para os mistérios do sobrenatural, e até abriu portas que deveriam estarem trancadas, mas quanto mais você se desprendia de si mesma, mais você se esquecia de quem era. Você consegue decifrar essa escuridão que carrega em seu corpo? Essa necessidade que te devora em achar que o mundo deve algo para você, enquanto carrega nos lábios um grosseiro sorriso de medo, acreditando que tudo foi fundamentado pela sua bondade. Quantas vezes você precisa errar para entender que o orgulho é uma porta maciça escondendo por trás uma pequena e imprevisível morte? Abra sua alma e um sopro de luz trará essa liberdade para você, pois a cor do seu coração te dará força para sorrir como campos verdes ao sol, e a música do seu espírito será dividida em sons que se harmonizam, para libertar seus sentidos com o perfume estonteante dos desejos secretos do seu coração. Vá em frente e deixe fluir a luz brilhante que trava seu rosto: como uma vela negra se apagando, eu deslizo meus dedos no vazio e sinto sua pele com cheiro de saudade, negando meu amor apenas para te proteger, pois as feridas abertas serão o remanescente do que o sentimento afirma.

Cronologia