sexta-feira, 7 de agosto de 2015
Mil Olhos e mais Um
domingo, 5 de julho de 2015
Um Banquete para o Vaidoso
Caminhando nas sombras da minha mente
enegrecida, eu procurei um lugar para festejar. Um lugar para olhar as
estrelas, um chão frio para se deitar, candelabros magníficos para iluminar seu
olhar, dançando livremente no crepúsculo e erguendo sua taça para louvar o
brilho da loucura que nos cega, pois a vida até agora tem sido um desperdício. Elas
eram tão adoráveis, aquelas amadas e suas singelas palavras – uma tinha a pele
aveludada e branca, a outra, uma virgem livre do pecado, a próxima me levava
aonde os amantes vão para dormir e a última trouxe sensações infindáveis como
noites quentes de verão. Mas dentro da luz nós desaparecíamos, jovens levados
pela melodia de suas falhas com o pôr-do-sol em seus olhos, vivendo o amor
enquanto suas almas fragmentadas gritavam e seus corpos voavam até que suas asas
virassem cinzas numa queda sob o espaço vazio onde o amor costumava brilhar. Para
forjar um futuro que eu poderia chamar de nosso, eu continuava quieto e calado,
observando a chuva cair sobre elas, o vento sussurrava suas vozes como
respirações geladas dentro de mim, sentindo suas ansiedades e medos à procura
de um amor para abraçar, mas elas apenas viam um homem através de desertos
cruéis da dor transformando seus dias escuros em noites claras. Sob a luz das
estrelas elas brilhavam em solidão, a morte pousava sobre suas carnes como uma
geada fora de hora cobrindo a mais doce flor do campo, e lá eu plantei minha
semente, num rito para restituir a verdade, pois aquilo que adquirimos no
momento em que alcançamos o que a vida tem a oferecer é o que nos torna únicos.
É hora de pegar tudo o que eu deixei dentro do seu coração, a força que decide
o curso do seu próprio destino, a fortuna, glória e triunfo... faça um pedido e
adote uma posição, e eu prometo o mundo para você, o sol pintará em seu rosto
como ouro dizendo que você não deve ter medo de viver. Pese o amanhã em suas
mãos para acordar no ontem e atravesse as fronteiras do hoje adormecido, por
que todos nós partiremos em breve, num momento de sobriedade, nós aprendemos a
ver que não fomos feitos para durar pela eternidade. Esta é a natureza de um
coração verdadeiramente vivo: em uma rápida olhada pela infância, eu me lembro
do sorriso de uma mãe, onde as palavras do vento eram honestas e a sonoridade
dos pássaros como beijos suaves em nuvens claras, sentado debaixo de uma árvore
frondosa apreciando sua sombra e sentindo o cheiro da grama ainda com gotas de
orvalho a evaporar, outrora o luar com auréolas reluzentes sobre flores belas e
cheirosas, uma rosa silvestre negra desabrochando e mostrando que aqui era o meu
lugar, mas às vezes temos que alterar os caminhos que planejamos, vivendo onde
as estórias não são contadas como um sacrifício pelos dias passados. As almas
não acordadas procuram por um álibi sob a luz rasa da noite, favorecendo a voz
de um coração frágil em uníssono com o instinto da deidade, mas suas palavras envenenadas
ecoam na cabeça como uma mosca infestada de poesia sussurrando seu anseio pela
morte.
domingo, 28 de junho de 2015
Quando as Luzes se Apagam
Plenamente acordado, no esplendor da noite eu
sinto a companhia da cativante escuridão, onde todos os erros parecem estar
certos e toda estrela se assemelha a um sol recém-nascido. Uma vez minha vida
foi simples e serena, eu podia ouvir a melodia quase esquecida do silêncio,
dançando numa frágil pele de criança enquanto o medo da nudez desaparecia, mas
como um beijo do anoitecer os ventos congelantes varreram meu coração para
longe da minha inocência, lançando-me para o sepulcro da mente como sombras
saudando-me nas rachaduras do espelho cravado em minha íris, sombras malignas,
com sinais de um amanhã inexistente, mantendo meus olhos sob a obscura luz
ilusória, com águas nebulosas e geladas à minha volta, atravessando minha alma
abandonada por deus... as águas que uma vez me abençoaram, agora queimam minha
pele e varrem-me das margens rasas para um rio escuro e profundo, acenando
minha abdicação enquanto engulo as águas da mentira e movo-me lentamente pelo
âmago da luz nascente sobre o oceano onde minha vida jaz adiante. É aqui que
isto deve acabar, eu desejaria retroceder no tempo, mas muito distante para
dizer o que compartilhamos e tivemos de tão divino, uma voz lá de dentro brinca
com minhas emoções e promete prazeres para escravizar meu coração, porém agora
eu estou no controle de todas as coisas e serei absolvido do que fiz. “Fale meu
amigo, você parece surpreso, eu imaginei que soubesse que eu viria disfarçado
em asas de branco como um anjo, eu posso fazer seus sonhos se tornarem
realidade, que belo par, eu e você, em uma jornada pela noite! Eu venho da luz
celestial, eu tenho todos os álibis e qualquer forma de luxúria em você irá
tremer ao meu toque, pois não importa se você esquecer nosso vínculo e seguir em
frente, pense bem, sua alma será minha no dia que você morrer. Eu sou aclamado
pelos anjos e banhado pelo luar, sou o verdadeiro discípulo da sua carne e até
que não haja mais resistência, estou certo de que nos encontraremos novamente.”
À crista de noites escurecidas, esta é a voz de sedução do caçador, cantando
eternas lendas místicas como ecos sucumbidos de um paraíso negro lá nas alturas.
Eu sento sobre estas rochas mais altas e observo as ondas se chocarem contra a
costa, desejando poder abraçar o mar e olhar para seus olhos esperando por
uma resposta, mas ninguém poderia entender esse sonho tão infantil, a dor e o
sofrimento, a vontade de negociar outra assinatura, pois ele fala em enigmas e
rimas, e suas palavras são como um alimento que nunca sacia. Como eu cheguei a querer você, assim como o solo
anseia pela chuva, você nunca saberá o quanto sinto sua falta, ou o quanto eu
temi... encontrando um caminho que criei à minha própria maneira, mas este é o preço que paguei pela minha escolha: você se tornou a
prisão da minha mente para que eu aguardasse pela aparição das rosas selvagens. Vá e pinte a escuridão com a sua luz, apenas lembre-se de que eu me deitei sobre esta página,
e há eras estou escrevendo um capítulo final, mas até que os meus olhos se fechem, eu sei que você voltará sussurrando o meu nome.
sábado, 16 de maio de 2015
Coração de Gelo
As nuvens recaídas derramam uma chuva obscena desfazendo-se
numa pintura sem moldura suavemente camuflada em peles alheias. Num batimento
viciante e volúvel as ondas do céu encharcam meu corpo e ecoam a falsa esterilização
dos meus olhos vazios olhando para o nada, encarando uma perda com frios
arrepios sobre meu ego pulverizado e descendo uma correnteza interior enquanto
empalideço numa bolha dormente flutuando entre folhas que me acariciam como
dedos fantasmas fazendo cócegas e mordiscando. Os sons silenciosos me acalmam
em formas e cores mudando de humor como pupilas dilatando suas tonalidades,
emergindo em ventos que respiram minha vida escorregando num raso rio virgem sob
uma canção escrita, imaginando qual o gosto da cor que vagamente se espalha nas
coisas frágeis e puxa-me mais forte para esvaziar-se do sangue sujo como rosas
num vaso branco absorvendo a doença que mastiga meu crânio. As horas passam
devagar como um homem ferido nas linhas moventes do horizonte bebendo a água de
uma miragem e comendo cacto com a boca sangrando, os vermes abrem uma fenda em
sua barriga e um rosto pálido e cansado se move em risadas na sua mente, usando
máscaras feitas para esconder seus grandes olhos brilhantes alimentando as
mentiras de uma sanidade fraca. As luzes em seu olhar são como piscinas frescas
atraindo os para-sóis gastos de um sol gelado e escurecido, como uma gelatinosa saliva
derramando sobre sua língua coisas indizíveis, ele armazena o
calor e o desejo de uma dor-prisma queimando suas narinas e derretendo seus
lábios encobertos de cinzas enquanto a carcaça da sua personalidade muda é levada
pela poeira dos seus sonhos congelados na realidade. É assim que
rangendo os dentes e cuspindo uma avalanche de adrenalina, mais uma vez eu
fecho meus olhos, mas a membrana fina não pode encobrir a marca que me
confunde, fingindo não ver os raios de prata dançando no crescente frio que
flutua e perfuma o ar – o limbo que costumava ser meu interior e aquecia minha
respiração opressiva – em fragmentos de um flácido e cintilante vislumbre dos
meus ossos cansados de viver entre sombras emitindo minha melancolia,
despertando todos os dias como folhas em pedaços através de um vidro
cor-de-rosa mergulhado dentro da minha carne em mil nervos abrindo fissuras com
alfinetes espetados. Abandonado em uma consciência imóvel, as trevas preenchem
meu olhar no alvorecer das estações, centenas de pensamentos sendo esquecidos e
sinais perdendo seus significados, sem lembrar-se de onde estou nem da vida que
passou diante dos meus olhos, descobrindo o quão pouco eu realizei por todos os
meus planos negados e sofridos nas nuances de um segredo guardado em minhas
recordações. A todos os meus amigos eu digo, essas são as últimas palavras que
irei dizer e elas irão me libertar: vocês sabem, quem já está dormindo não
sente mais dor. Então se algum dia vocês leem isto fiquem sabendo que eu
gostaria de estar com todos vocês, mas meu corpo se foi, os meus cabelos se
dissolveram nos ventos frios e o meu cheiro se espalhou pelo mar das almas falidas,
a minha voz atormenta os camponeses para que se ergam contra os grandes
engajadores que louvam a arquitetura da agressão e o meu olhar observa-os no
manto negro da noite com o poder de um vazio resultante, sentindo o que as
pessoas carregam em volta de seus ombros como cargas pesadas de carenagem, e no coração a dor agoniante que se intensifica ao ver todos
aqueles demônios bebendo e dançando, eles cultuam e brindam ao senhor da noite enquanto
seus corpos desalmados servem de banquete, exibindo pontualmente que é tarde
demais para a humanidade, pois a calmaria apenas faz com que o agressor fique mais
agressivo e somente o terror e a feiura revelam o que a morte realmente
significa.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
A Carta Negra
Sensual
carta anônima
“Amada minha,
No flutuante lago sem forma da sua canção, sua voz
atraiu-me amorosamente para dentro dos seus olhos.
A luz verde brilhava em seu rosto, enchendo os que te
rodeavam com o mais belo brilho da meia-lua dolorida, amarga e triste.
Como a sombra de um amante faminto eu transava com
seus olhos cantantes, arrepiando-me como um sentimento que transformava seu corpo
em pecado.
Cada batida do seu coração era cansada, mas seus
olhos efêmeros eram cobertos por uma esmagadora tristeza como rostos sujos de lama, amenizados pelo calor incandescente de um auxilio inconsolável.
Em silêncio eu observava numa nuvem de memória, meus
olhos brancos e secos choravam um rio de escuridão, sentindo calafrios em cada
verso da sua melodia até perceber que não havia espaço para mim, pois você
sempre me tratou como uma doença mortífera.
Durante anos eu me perguntei, o que eu via em você ou
nas outras amadas?
Fizeram-me entrar em colapso e esquecer de que as
trevas ocultam a luz do conhecimento, arruinando minha vida com palavras
torcidas e mentiras que me levaram direto para um mergulho no lago negro.
É imensamente hediondo da sua parte achar que esta
carta foi escrita somente para satisfazê-la, afinal encantado pela aurora que emana
da sua beleza, o que eram minhas palavras além de ilusões de um olho nu ou
fantasmas deitando no piso do seu quarto?
Eu finamente vejo por que eu me apaixonei por você,
agora eu vejo, o que você realmente significa para estes olhos vazios que estão
olhando de volta para mim.
Com um lenço eu sinto a dor desta última ferida como uma
falsa fixação nas suas costas segurando minha vida pela pele dos seus
dentes.
O que me resta é limpar a mente de um sentimento morto
para ser invadido pela mancha escura que escorre num quieto desespero em meus lascivos
sonhos.”
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