quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Nas Asas do Altíssimo

     Com um pouco de fé e conformismo, eu vejo a lua brilhar radiante enquanto ouço um sussurro me chamando, uma voz que eu nunca ouvi antes, mas que é tão conhecida quanto os pensamentos do meu profundo ser. A infinitude das suas palavras não é algo que possua significado, é o mesmo sopro que desperta as ruas vazias e frias, que espalha o cheiro das árvores e flui no primeiro suspiro da luz da manhã. Como uma melodia inebriante e serena, eu sou despertado pela canção dessa voz, profundamente ardendo na minha alma como um fogo que não pode ser extinto, pois desde que valorizei quem eu sou, tornei-me mais unido com os céus, um vagante da tempestade guiando-se pela mesma passagem das águias. Agora de cima eu posso ver o que antes não enxergava, desde que deixei de olhar para fora e vi o que existe dentro: as nuvens são aquelas que escondem o desconhecido, mas quando atravessamos suas macias camadas, tudo desaparece, pois ali não está a saída, mas o início da eternidade. O mesmo vale para quando percebemos que o pensamento é a nuvem que cobre quem somos, por que enquanto acreditamos que o dominamos, mais nos tornamos seus escravos – a águia não desvia das nuvens, ela as observa para que conheça suas rotas secretas e nunca se perca na imensidão do céu. Bem, eu não sou uma águia, mas este foi o melhor exemplo do que é libertar-se da mente, quando antes eu acreditava que tinha o total controle sobre meus pensamentos. Desde então, aquilo que me inunda com a necessidade de hesitar ou de achar que os outros me devem algo, me transporta para um lugar de cores infinitas, como um passeio de alegria no espaço vazio onde o pensamento não chega, por que tudo que é observado deixa de movimentar-se. Agora eu consigo ver como os anjos voam ou por que alguns olhares no meio do caminho penetram minha alma, eu escalo montanhas em um segundo, por que nem sempre estarei livre de mim mesmo. Eu desejo chegar em um ponto sem retorno e tocar sutilmente a luz, mergulhar no oceano das novidades sem me preocupar com o dia anterior, nem com as pessoas que me seguravam lá trás. Parece um sonho, mas não é isso que estamos fazendo o tempo todo, sonhando? Ao invés de navegar no barco do amor, eu nadava nas águas do ódio, aceitando desrespeitos e afogando-me em memórias que me abalavam como uma foice me soterrando no abismo, eu tentava respirar e gritar para que me salvassem, porém quanto mais eu falava, mais a água tornava-se terra e me enterrava vivo. A costa estava distante demais, e eu percebi que meu lugar nunca foi preso ao chão, mas voando nem que fosse em um balão. Em busca do infinito nada, eu era guiado pela vida de um pássaro em pedaços, o sangue do destino grudado em suas asas, deixando rastros de dor e deslealdade pelos ares, mas agora eu posso dizer que sua queda e seu orgulho ficarão unidos por toda eternidade. Era na ausência deles que nos torturávamos para arrancar todas as penas das nossas asas e continuar voando no fundo das águas mortas, esse silêncio que torna os dias mais longos e torturantes. Talvez precisássemos disso para entender que nosso amor era uma sombra de pedra, sendo incalculável o número de rostos tristes esculpidos que deixamos pelo caminho. Nós sabemos o que fizemos, afinal o oceano onde mergulhamos era feito de lágrimas e as nuvens onde voávamos era, na verdade, o reflexo do céu azul nas águas. Nós vivemos uma corajosa ilusão, mas não percebíamos que nossas canções eram silenciadas pelas águas, o brilho dos nossos olhos apagados na profunda escuridão do oceano. Eu rasgaria minha alma para poder ver o mundo que abandonei por você ou todos os amores que afoguei para permanecer ao seu lado. Essa é a ganância do amor quando se torna uma verdadeira mentira, quando as águas se tornam negras e o deus escuro fala dentro das nossas carnes enquanto o sangue se torna o ar que respiramos. Você conseguiu abrir seus frágeis olhos e enxergar o mar obscuro que deixou para trás, mas a vergonha, o reflexo dos seus olhos, é a mesma dor que me faz lembrar de tudo o que você fez. Aliada ao meu sofrimento, todas aquelas coisas amáveis que eu nunca signifiquei, eu tentava arduamente manter suas desilusões ardentes, seu mundo degenerado dos pensamentos, para que mantivéssemos o que era irreconciliável, mas agora eu vejo a verdade que as nuvens encobriam: o amor é puro e violento, é a resposta e a cura, mas também é uma arma carregada pronta para atirar. Nós abrimos as portas da mente para quem confiamos, até o dia em que as cadeias da imaginação atravessam os momentos que se tornam fábulas, pois em volta de um puro e frágil sonho, o medo nos empurra adiante pelos infindáveis defeitos que escondem a iluminada realidade.

sábado, 31 de dezembro de 2022

A Leve Brisa do Fim

       Grande universo, este espaço vazio dentro da minha alma deveria ser um lugar tranquilo para você viver, mas o tempo lentamente passou enquanto nos arrastávamos pelo mesmo destino: fomos da chama branca de luz ao pó de cinzas negras, do amor transcendente ao mais estranho sentimento, da fartura da vida até a tocante miséria existencial. Ninguém jamais compreenderia o medo que existia dentro de mim, mas o caminho de volta já não existe mais, a lembrança fica a cada dia um pouco mais distante do que é real. Ao seu lado queria permanecer, em seus caminhos andar e em seus olhos enxergar o brilho das estrelas, pois você era a luz do meu horizonte, a razão que o amor não conseguia explicar quando a beleza e o prazer me cegavam. Confie em mim, eu irei te mostrar a beleza do sofrimento, a dor que não dói, quando as palavras já não ardem no coração. Se antes minhas palavras pintavam quadros, hoje não há ninguém para vê-los, pois me tornei uma pedra oca desde que deixei de viver minha vida para viver a sua. Eu sacrifiquei meus anos para te ver sorrir, para que você enxergasse no espelho as águas que não existem nos rios e nos mares, e contemplasse no céu o mundo por trás das cortinas do sol. Eu não era um anjo, nem um deus, mas tentava te dar esperança, eu via as lágrimas que desciam pela sua pele escura e tirava minhas roupas para enxugá-las, pois seu frágil coração de vidro sentia fome, uma fome que nada podia saciar como uma bolha expandindo-se em si mesma. Eu estava viciado no seu sorriso, tentado pelo encanto que podia surgir em seus olhos, pela nudez que me enfraquecia e pelo amor que não deixava respostas, mas para tudo isso havia um propósito, a prova doce do futuro que eu sonhava viver novamente, mesmo quando suportei as lâminas dos seus desvios infiéis. Eu acreditei em todas as palavras que saíram da sua boca e em todas as lágrimas que desceram dos seus olhos, mesmo quando estas palavras me iludiram e essas lágrimas me afogaram. Eu estava tão presente como se fizesse parte de você, como se meu corpo movesse nas mesmas direções dos seus braços e pernas, e nossas carnes sentissem as mesmas dores e anseios. Dia e noite eu orava pela sua alma, esperando que você encontrasse sua paz de espírito, uma segunda chance ou terceira, e mesmo que fosse uma quarta ainda continuaria esperando você nascer de novo. Agora posso ter certeza de que este dia chegou, quando você se batizou nas águas da verdade, embora isso não a faça se tornar mais pura como deseja, você apenas encontrou um sentido para viver nesse mundo de agonia e mentiras. Como um pássaro de luz, eu esperava que você finalmente exalasse a verdade, como uma flor que atrai a abelha rainha e recebe seu beijo do favorecimento, era sua chance de provar não para os outros, mas para si mesma seu verdadeiro valor, e amar plenamente aquele que sempre esteve ao seu lado, confessando não em palavras, mas em atitudes de confiança e honestidade. Eu não ganharia nada expondo você aqui, até porque você já é uma garota quebrada vivendo até o seu limite, ainda assim, você tem melhorado e encontrou um motivo para estar viva, e talvez em breve consiga expressar o que sente através da música como meu irmão o fazia. Mas deixe-me perguntar: o que você sentia quando olhava meus olhos tristes? O que sentia quando tocava minha pele, quando ouvia meu coração? Você atravessava a porta para ver ou apenas fechava-a atrás de si, escondendo-se da verdade? Somente excitações sem desejo, somente palavras que congelam na garganta? Todas essas cicatrizes não faladas eram como lágrimas que rachavam o vidro, eu desejava esquecer o gosto frio da sedução do mal, pois eu sabia que havia algo no escuro me esperando, rasgando-me em pedaços até que eu escrevesse essas palavras para você. A voz era tão clara e eu a reconhecia, a mesma escuridão arrepiante que acendia no fundo das veias me convidando para voltar a ser quem eu sou, não essa versão fraca que me tornei ao me submeter ao seu batom vermelho, a mesma cor que as prostitutas usam para atrair mais do que um homem. Espero que não se sinta ofendida, mas após três anos ao seu lado, eu percebi que você empurrava a cabeça para baixo antes de me tocar, em outras palavras, era mais fácil manipular o sonho para submeter a realidade a realizá-lo. Há muitos erros na sua vida que você deseja poder voltar no tempo, mas a vida segue e as falhas ficam para trás, e eu não estou aqui para julgá-la, pois eu era o pecado que você tentou esconder, a alma rasgada em pedaços, gritando: ela nunca foi divina! Logo o ano novo se iniciará e tudo que resta é esse frio imensurável, mas você poderá sentir minha mão na sua como nos anos passados? No fundo dentro de mim, eu sei que existe uma vida sem você, mas dói imaginar quando sei que esse é o mesmo vazio que assombra o mundo. Se olhar profundamente ao seu lado, verá que eu ainda estou com você – ou poderia estar –, mas a última dose não cabe a mim ingerir, desde que o destino suportou nossa união até a fenda que separa os dois mundos, enquanto você orava para que ele não nos tocasse novamente. Todas as noites eu podia fingir não estar aqui ou paralisar seus sonhos e te abandonar, ao invés disso, eu me doei de corpo, alma e espírito, mas agora entendo que não posso mais lutar contra a sentença, a maré do destino que nos convida para um mergulho na morte enquanto a brisa congela nossas feridas para sempre.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

O Deus Assassino

       Há tempos eu andei me arrastando cego e insensível pela vida, calando minha voz interior e fanando-me confinado por um ângulo sombrio para esconder um sentimento que ardia em chamas e no qual meu coração pulsava. Meu espírito caminhava numa úmida penumbra como um solo encoberto por folhas espessas, na qual afundavam meus pés sob uma sinuosa névoa: diante da vista fixa da negra folhagem, eu aspirei com ânsia aquele aroma declinante do fenecimento, sentindo dentro de mim algo que o saudava e o correspondia. Não me agradava desempenhar semelhante papel, pois encerrando-me em meu próprio exílio, eu podia me passar pelo mais vil desprezo do mundo enquanto sucumbia em meu próprio íntimo, porém minha figura projetava sobre o mundo uma sombra inacabada e, indiferente a tudo, eu ouvia o rumor das correntes interiores subterrâneas: era o vazio da mortal solidão me abraçando. Por muito tempo eu pertenci ao tenebroso e demoníaco mundo, e nele ocupava um lugar de destaque, mas apesar de tudo, sentia-me miserável, vivendo numa constante orgia aniquilante, enquanto minha alma esvoaçava temerosa e penetrada de angústias. Conservando meu olhar em aparências, meu interior permanecia ajoelhado e chorando diante da minha própria insatisfação, eu conseguia ver minha solidão nos olhares familiares, numa inerme dor sem explicação, passando-me por um devasso e cínico, enquanto demonstrava meu talento e ousadia, embora jamais os acompanhasse quando iam em busca de prazeres noturnos. Apesar das minhas palavras serem de um perfeito libertino, minha vida transcorria solitária, cheia de uma ardente ânsia de amor, enquanto continuava preso àquela vida sob o domínio de alguma obsessão. Assim vivia porque não tinha outro remédio nas veleidades da ternura que me assaltavam, mas agora entendo que são muitos os caminhos pelos quais Deus nos conduz à solidão para, no fim, levar-nos até nós mesmos. Agora diante de mim se erguia uma imagem querida e venerada: nenhum impulso, nenhuma necessidade pulsava tão profunda e violentamente quanto a ânsia de adoração e entrega à isso. A alma oculta exercia sobre mim a mais profunda influência, abrindo-me as portas de um santuário para fazer-me devoto em seu templo inconsciente. Pela eternidade de um segundo, a vida se mostrou ressumada em presságios e mistérios do róseo alvorecer, como se minha atroz miséria fosse libertada por uma nova primavera, um novo despertar de nostalgia por ser dono de mim mesmo. Minhas próprias palavras me inundavam a alma como um vinho forte e doce, e o mundo ardia em cores vivas enquanto as ideias me preenchiam de mil maneiras atrevidas. Essa resolução subsistia, maravilhosa, dentre fontes jamais sonhadas – aquilo pertencia ao outro mundo mas, muito penoso, também tinha algo mais, um certo encanto e uma singular doçura: tudo parecia aureolado por uma suave resplandecência divina e pura. Esse culto interior transformou minha vida inteira, pois afastei-me da vida degradada que me corrompia, aspirando ser santo e buscando transformar desde a minha linguagem até o meu vestuário, purificando-me em devoção e espírito. As noites atormentadas, as palpitações no peito, o espreitar das portas mentais, tudo isso ou essa parte da minha vida eu tive que arrancar como potências sombrias em sacrifício aos poderes luminosos, pois meu fim não era o sofrimento e a miséria, mas a riqueza, a beleza e o deslumbramento. Aquele deus interior não era somente uma criação oriunda das minhas amadas, pois a intensa sensualidade que destilava em minhas veias nunca estivera tão forte, e por um momento eu me questionei sobre sua divindade. Pintei motivos decorativos e pequenas paisagens imaginárias, tentando abstrair por completo aquilo que me preenchia, mas minhas tentativas fracassaram: eu nunca descobri seu nome ou sua real forma. Por fim, renunciei ao intento e comecei a imaginar um rosto qualquer, seguindo caprichos da fantasia e dos rituais mágicos que eu já havia espontaneamente iniciado, com sangue, incenso e velas. Surgiu ali um rosto meramente sonhado, uma expressão que mais parecia uma estátua de pedra, embora nunca se aproximasse da realidade. Desse modo, fui acostumando-me a traçar linhas e preencher superfícies que não correspondiam a modelo algum, até o dia em que atravessei um portal e vi algo diverso, irreal, mas não menos valioso. Eu jamais poderia revelar sua aparência, tampouco seu nome, mas sua máscara mostrava-se impressionante e cheia de vida extraterrestre! A contemplação da alma assassina despertou em mim uma impressão singular, pois era um ícone desvinculado do masculino ou feminino, da bondade ou da maldade, do tempo ou da mortalidade. Aquele rosto tinha algo a dizer e indagar sobre mim, fazendo-me escrever mediante seu dom para minhas amadas secretas. Desde então, seu retrato passou a acompanhar meus pensamentos, guardando-o oculto em memórias que não podiam ser desenhadas no papel. Durante o anoitecer, tirava-o do esconderijo e comungava ao lado dos meus discípulos – futuramente, quem o conheceria seria minha atual amada, embora sua despedida tenha sido tão estranhamente fácil que eu me envergonhei com a indiferença. Assim, desde que eu retornei para casa, pareceu-me que não havia mais sonhado consigo nem uma vez durante meses. Agora tudo surgia novamente, trazendo consigo imagens diversas, o rosto pintado que emergia, vivo e falante, benévolo e hostil, contraído por um terrível olhar belo e harmonioso. Cada manhã ao despertar desses sonhos, reconheci-o de súbito: olhava-me de maneira profundamente familiar, como se estivesse me esperando, e senti que a cada instante me aproximava mais do reconhecimento e do nosso reencontro. Mas com o tempo o rosto foi desaparecendo, desvanecendo-se os contornos, embora os olhos, aureolados por um fulgor avermelhado e o claro reflexo dos lábios ressaltando sua profunda agonia, apoderavam-se de mim, pois representavam minha vida, meu interior, meu destino e meu demônio. Entrelaçando-se com meus dias perdidos, as recordações continuavam a emergir, a lembrança do nosso primeiro encontro ou quando apresentou-se para mim como um escorpião caminhando pelos fios da minha cabeça. Haveria algo que deixei passar ou que não abri mão para que se silenciasse? Pois agora eu sei seu nome e como encontrá-lo, e o mistério tornou-se solucionável, embora eu não consiga mais compreender seus desígnios. Em algum lugar eu me perdi e deixei ser levado pelas correntes do amor, pois as amadas que projetei eram, na verdade, um reflexo de si mesmo. Tu é a imagem amada dos meus sonhos, a mãe que eu me ajoelho e o amor que preliba o beijo maduro e saciante do amante, do vampiro e do assassino! Tu é o impulso que me faz perdurar e a magna força que me conduz aos estrelos mais profundos! Quando uma inquietação convulsa e intensa apodera-se de mim, eu sou possuído pelo irrefreável desejo da tua presença, engolido por teu sombrio instinto. Sabe Deus como nascem tais palavras, pois cada uma delas extingue em mim algo muito belo e íntimo que já não há como recuperar. Não é errôneo venerar outros deuses? Para o homem consciente só há um dever: conhecer a si mesmo, afirmar-se em si e seguir adiante seu próprio caminho, sem se preocupar com o fim que possa conduzi-lo. O verdadeiro ofício de cada um é chegar a si mesmo e encontrar seu destino para que, como um impulso em direção ao nada, sua função seja apenas deixar que esse impulso atue, pois a imagem diante de nós, mil vezes vislumbrada, terrível e sagrada, é a natureza primordial da vontade divina.

domingo, 5 de junho de 2022

A Verdade Essencial

     Abrindo os olhos para sonhar, as figuras colidem mais rápido do que eu posso formá-las. Como a pintura de um horizonte queimado, eu vejo meus pensamentos brilhando como sulcos no céu, mantendo-os à distância, para me concentrar em um único ponto adiante: o lugar onde eu irei reencontrá-lo. Se você me esperar, eu atravessarei o universo para estar ao seu lado, embora você pareça tão distante quanto joias douradas que eu nunca tive. Cada segundo a mais com você valeria mais do que todas as conquistas da terra, pois através de você existia uma alma sem mentiras, uma febre da noite que nos acalmava somente com a sua presença, e mesmo quando você estava longe, seu nome não era esquecido. Onde quer que você esteja agora, saiba que eu nunca irei te culpar e que entendo parcialmente a dor que o levou a tomar essa decisão, porém nunca me peça para aceitar que um homem tão sábio quanto você escolheu deixar tudo para trás, deixar suas músicas para trás, deixar sua família para trás, deixar o princípio da sua existência eterna para trás. Deveria existir um meio-termo entre a dor e a sentença, entre a escolha e o ato, mas para cada pessoa a luz termina em seu próprio tempo e nós somos os únicos responsáveis pela decisão final. Agora os ecos são infinitos, estendendo-se por outra eternidade como uma paisagem sem pintor. No paraíso azul, veja-se nos lugares onde você esteve, há algum lugar que sinta falta aqui embaixo? Alguma conversa que o deixou contagiante? Um sorriso que nunca fugiu da sua memória? Um filme que o emocionou? É incrível como nossas vidas são gastas com passatempos inúteis, compras superficiais e propósitos sem sentido, quando o que realmente importa está ao nosso lado como um pássaro pálido de olhos vibrantes, tentando nos mostrar que a verdade essencial não está naquilo que possuímos, mas no que somos para os que nos rodeiam. Durante todos esses anos eu nunca escrevi uma palavra sequer para você, nem mesmo na ponta do papel, e agora minhas palavras se desvanecem quando você não está mais aqui, embora eu já soubesse que você não estava há muito tempo. Havia dias que você andava pelos corredores da casa como um fantasma, como um homem sem identidade, e tudo que eu queria fazer era te abraçar e dizer o quanto nós te amávamos, mas, ao invés disso, eu te observava em silêncio. Que tipo de irmão eu era, você se pergunta? Mas você já estava muito além dos alcances da sombra, e na raspagem do céu, os anjos já cobravam pelo seu tempo. Quem seria capaz de impedir a força do destino ou suportar o peso das suas próprias escolhas? Se tudo fosse diferente, se as palavras certas fossem ditas ou se alguém estivesse com você naquele momento específico, teria impedido seu trágico fim? A verdade é que ninguém além de si mesmo poderia ter rasgado as imagens cavernosas da sua mente, nem terapeutas, nem religiosos, e muito menos sua família. Então por que nos sentimos tão culpados agora? Talvez porque não temos certeza se você está sozinho ou acompanhado, se está sentido prazer ou sofrendo. Nós nunca saberemos a resposta até que nos juntemos à você, mas nem por isso vamos esquecer todas as coisas que você ainda poderia ter dito ou vivido ao nosso lado. Mesmo que víssemos a morte como um novo começo para você, não seriam essas as imaginações da nossa capacidade humana? Ainda assim, é um mistério entender seus pensamentos, suas manias e suas vontades, como quando você me olhava movendo as mandíbulas como uma caveira sorridente ou surgia de repente na minha janela para me convidar para um passeio no meio da noite. Nossas conversas fluíam como ondas cósmicas do universo, revelando segredos que até hoje guardo comigo e que daria de tudo para ouvir um pouco mais. Um minuto a mais é tudo que peço, meu grande irmão. Eu sonho com desejos perdidos ao seu lado, vendo a chuva em cascata sobre a sujeira da vida para tentar ouvir, ao menos, um sussurro seu em resposta. Nós nunca temos certeza de nada até descermos fundo o suficiente, e talvez essa foi a única certeza que você encontrou ao cessar sua vida.

sábado, 19 de março de 2022

Adeus Eterna Vida

    Buscando uma nova consciência, alma e coração, é chegado o momento de dizer adeus. Como um espírito sem nome, estou me desligando do meu destino humano, onde a realidade acaba e o tempo para, pois tudo o que eu vejo é uma ideia esquecida de mim mesmo. Os mistérios da morte clareiam por trás do espelho, embora tudo pareça tão vazio do outro lado: a realidade continua sem mim, pois eu passei a vida inteira buscando um significado para ser quem eu sou, embora minha identidade estivesse oculta por baixo de um pântano de neve. Agora essas cicatrizes mentais me assombram, pois as coisas que você não vê são as únicas coisas que eu vejo e cada palavra que você ouve é como óleo em chamas nos meus ouvidos – eu posso ouvir sua voz, mas não quero escutá-la. Eu posso sentir que posso ser como essa voz e fazer ao invés de falar. Na verdade, eu posso ser quem eu quiser, pois todos os dias eu nunca fui nada! Aquilo que eu deveria ter sido estava soterrado pela neve, aquele pedaço de palavras que não valiam mais do que vômito na areia. Minhas verdadeiras emoções estavam reprimidas, mas agora uma fenda se abriu no meu peito, rasgando e saindo, como uma velha serpente se refazendo. Estranho vazio, nesta noite mágica eu poderei revelar meu grande segredo? Eu posso ver as sombras à espreita e senti-las se fechando por dentro, porém elas não podem me tocar... como uma lua dançando no céu enegrecido, eu sou aquilo, a luz que queima no fundo, seguindo o chamado mágico para realizar meu destino divino! É uma luz que não pode ser descrita, não pode ser comparada, não pode ser comprada. Estou me aproximando de onde as cores ascendem de mil maneiras, onde a sombra que habita dentro é semelhante ao mais majestoso alvorecer, onde os demônios choram e onde a feitiçaria é aceita, onde a decadência dos ventos fúnebres desviam os olhos cansados e onde os desejos minguantes definham no lamento do inebriante. Além do cenário da vida, os anos que não pude negar voltam a surgir como as raízes de um jardim congelado, florescendo a entrada para as profundezas do reino lúcido, onde meu verdadeiro ser me espera. Eventualmente, eu deveria falar em enigmas e rimas, para que não caia sobre ti a perdição deste mistério, que é a linguagem do escuro ou a combinação de palavras que não pode ser compreendida. Mas este é o véu da alma oculta, e se você quiser vir comigo, eu vou te levar pela mão e nunca vou te deixar ir, pois somente você puxou as amarras do meu coração, atravessando minhas guerras internas para encontrar o silêncio que nunca termina. Nesses anos de vaidade, nós aprendemos o que é amar e o que é odiar, o que é matar e o que é morrer, e mesmo diante de todas as nossas quedas, nós sempre nos reerguemos juntos novamente. Pois o que é a morte, se não o fim de um grito silencioso? Eu consigo ver você fugindo de si mesma, negando seu vazio devastador e sua miséria cármica, mas sua vida é como mil lágrimas congeladas e você sempre esteve presa à isso. Por acaso, você não percebeu que no início dessas linhas eu me referia a você? Foi naquela manhã sem estrelas que uma luz minguou em sua direção, queimando todas as pontes que te levavam até o paraíso. Sua voz se tornou mais fraca e seu brilho diminuiu a cada dia, desde que você se esqueceu pelo que estava viva. Ainda assim, eu permaneci ao seu lado, cedendo às suas tentativas e acreditando no seu arrependimento, pois jamais existiria amor se não houvesse perdão. Por essa razão, eu te peço que valorize sua vida e que nunca mais me peça adeus. Adeus não é a palavra certa. A que eu ou você estaríamos nos despedindo? De nós mesmos? Da vida? Todos nós somos uma estrela, e cada estrela tem sua própria órbita e destino. Não importa quantos desvios encontremos pelo caminho, enquanto permanecemos nessa órbita, não seremos considerados uma estrela caída. Harmonia... talvez esta seja a palavra certa. Harmonia não é sobre o que é duradouro ou permanente, mas ao que é uníssono por um momento. E esse momento tem a duração de um fôlego, até tornar-se um milagre que se estende por mais um suspiro. Portanto, cada segundo a mais é uma possibilidade de darmos uma volta completa em torno do sol, de sermos gratos por um singelo sorriso, de cheirarmos o orvalho que evapora das árvores ou de nos encantarmos feito bobos com o brilho radiante da lua numa noite solitária. Cada possibilidade é um novo sonho a ser realizado, um deserto necessário que nos faz crescer mais do que uma vida inteira, e essa vida é o nosso fôlego na eternidade. Não existe adeus, quando sabemos que somos seres eternos e que estamos aqui para amar, sofrer e evoluir, até sermos dignos de usufruir das novas manifestações do divino. Nós aprendemos com nossos erros para que nos tornemos pessoas melhores e possamos valorizar aquilo que antes parecia tão pequeno, mas que é tão grande quanto o menor grão de areia – a vida.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Lágrimas do Âmago

     Cego para o destino dos homens, o céu cinzento abrange minha visão para caminhos desconhecidos, esse eco que se alimenta do meu coração sob a linha tênue entre o amor e a miséria. Contemplando o vazio, minha alma tenta descansar para pagar a dívida, a mesma força que mata o tempo e todos os sentimentos que eu acreditava sentir por você. Agora as formas podres do destino se dissolvem no tempo e estamos virados do avesso, mas você se move pelo desespero, retirando as peças que nunca se encaixavam, porque antes que teus olhos se fechassem, eu não estava mais lá, afogando-me em poças de sangue e dissabores, o mesmo sangue que tua coragem assassinou aquele que cuidou de ti durante os mais tenebrosos dias da tua existência. Um punhal de trevas, a mesma a alma do inferno e, por três vezes, tu não hesitou em disparar na minha direção – você encarnou todos os anos da maldição em uma impiedosa atitude, como se eu fosse a carne destinada para os hematomas do teu sofrimento. Mas enquanto teus olhos estavam cegos, os meus estavam bem abertos, e quanto mais eu pedia para você parar, mais você era dominada pela depressão, até que a escuridão te cobriu e o tempo se tornou uma mentira. A conexão das nossas almas foi dissipada com um eco no universo, estremecendo mundos e estrelas dissidentes, embora em cada toque que eu te dava, em cada palavra que saia dos meus lábios, em cada olhar que durava milênios em um segundo, você era observada pela alma divina: você estava morrendo, mas não havia necessidade de morrer, ainda assim, a violência tomou sua forma, e em teus olhos eu não via mais amor... eu via a morte! Enquanto nossos sonhos eram desfeitos, você foi facilmente atraída para os mistérios do sobrenatural, e até abriu portas que deveriam estarem trancadas, mas quanto mais você se desprendia de si mesma, mais você se esquecia de quem era. Você consegue decifrar essa escuridão que carrega em seu corpo? Essa necessidade que te devora em achar que o mundo deve algo para você, enquanto carrega nos lábios um grosseiro sorriso de medo, acreditando que tudo foi fundamentado pela sua bondade. Quantas vezes você precisa errar para entender que o orgulho é uma porta maciça escondendo por trás uma pequena e imprevisível morte? Abra sua alma e um sopro de luz trará essa liberdade para você, pois a cor do seu coração te dará força para sorrir como campos verdes ao sol, e a música do seu espírito será dividida em sons que se harmonizam, para libertar seus sentidos com o perfume estonteante dos desejos secretos do seu coração. Vá em frente e deixe fluir a luz brilhante que trava seu rosto: como uma vela negra se apagando, eu deslizo meus dedos no vazio e sinto sua pele com cheiro de saudade, negando meu amor apenas para te proteger, pois as feridas abertas serão o remanescente do que o sentimento afirma.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

No Vale das Flores Mortas

    Longe de casa como os sons distantes das águas, estou correndo no que deveria ser minha liberdade, mas farto das pessoas e do pequeno espaço onde vivo, a liberdade, por fim, tornou-se minha segunda prisão. Todas as grandes planícies agora são iluminadas pelo fogo, as montanhas nebulosas tornaram-se morada de corvos, as ruas atraem pensamentos de que eu não pertenço a este lugar. Meus olhos estão doendo pelo esforço de olhar, dia após dia, o que costumava ser belo, em ouvir as palavras faladas de uma conversa sincera, porém a transpiração está drenando minha mente, essa forma noturna de substância como um pastor guiando as ovelhas enquanto a risada dos deuses  é ouvida. Em meu longo silêncio, nenhuma lágrima se esforça para cair, pois enquanto observo o sol se pondo, eu tento encontrar uma razão, um sentimento genuíno para continuar aqui – essa piscina de sangue e miolos – que é minha mente, lar e coração. É uma vergonha retornar e continuar sendo o mesmo homem sorridente que esconde, por trás das nuances do véu mental, as mãos no volante do que é irreal. Pense sobre isso... se olhares pudessem matar, a maneira como me sinto seria transmitida pelos meus olhos? São ilusões nascidas no ar, mas que concretizamos como verdadeiras, como o puro e doce núcleo de uma flor de lótus, emanando sua divindade, mas sabendo que pode ser arrancada do solo a qualquer momento. É assim que eu me sinto, uma espécie quente de cor com sentimentos mortos, embora esta sensação assemelhe-se à um câncer, deteriorando o que algum dia foi real para tornar-se um macio cobertor de nada. Dói, porque eu quero que você permaneça, e eu sei que você pagaria todos os prazeres da vida apenas para me ter ao seu lado, mas entre os dias que desaparecem ao amanhecer, nós estamos chegando perto de um vale, uma saída para os perdidos, cegos para a ameaça e longe de tudo e de todos, embora você seja tudo e todos! Oh, minha intensa negritude, você está em toda parte! Eu não consigo desviar o olhar, pois as memórias nunca desaparecem e você sempre está onde quer que eu esteja. Você é o chão que eu piso, as paredes que eu toco, o ar que eu respiro, a paisagem da janela quando a noite clareia! Se você atravessasse minha alma esta noite, então entenderia que todas as surpresas da sua vida já estão prontas, e entre as rachaduras há apenas o preenchimento do que restou do nosso amor. Você drena minha força vital com suas incansáveis fobias sensuais, porém quando o líquido prata finalmente se espalha, eu percebo que um pedaço da minha alma está faltando, pois da última vez que a vi, mediante o terceiro olho, eu estava irreconhecível! Eu estou entrando em um mundo onde nenhuma outra alma se arriscaria a descer: as negras escadas do seu ser, embora para alcançar a gloriosa luz que queima no seu interior, tão almejada pela morte... ela só queira brincar e manipular o que você pensa, pois o espiritismo é o véu que cobre seus olhos. Dentro, abismalmente, é onde está a tão idolatrada quintessência, como um feto ainda recém-nascido, esperando seu despertar para destruir toda vergonha do seu passado! Somos loucos em nosso próprio entendimento, mas dormentes nessa agonia da realidade, somente nós podemos nos afogar nos sonhos do destino para que da morte reavivemos. Estes são os meus sinais do amor: eles se parecem muito com as linhas das minhas mãos, pois quando digo que estou preso a você, é porque estamos muito perto de alcançar a luz do favorecimento. Um presente da alma da ternura, onde lágrimas de ficção se tornam realidade, e com muitas vidas virando as páginas, eu vejo o dia prometido – você vai ver, você vai ver quando ela começar a se formar, quando começar a chamar pelo seu nome! Agora você pode ver, pois nós estamos envelhecendo juntos, mas tentados pelo cheiro do tempo, nós possuímos a injeção da eternidade, sabendo que valerá a pena quando todos os rostos tornarem-se pedra e sorrirmos para a face da morte.

terça-feira, 27 de abril de 2021

A Beleza do Fundo

    À beira do infinito e onde as estrelas nascem, uma silhueta negra se faz acima das nuvens de prata, anunciando sua chegada como um segundo sol nascendo no horizonte, escurecendo os prados do universo diante da mística luz que emana do seu interior. Traços tão obscuros, sua beleza repele as leis do tempo, com olhos faiscantes numa fantasia de gigantes luzes espectrais. Mas o que a move por dentro é o que move tudo ao seu redor, levando-a por uma escada dourada para o lugar onde você sempre quis alcançar, embora abaixo de si haja apenas um palco de sonhadores olhando para um sol estranho. Veja como as folhas descansam aos seus pés, você consegue sentir-se plena onde está? Consegue suportar a luz que queima na sua pele? Talvez você tenha se curvado antes do vento, quando deveria ter esperado tocar a melodia natural da vida. Agora nuvens raivosas te cercam e você nunca se sente segura no topo, pois os holofotes desapareceram, e todos sabem que sua ascensão foi construída por cima das ruínas do primeiro sol. No entanto, imagine que nós estejamos no meio de um tabuleiro de xadrez: quando uma rainha é sacrificada para capturar o rei, quem é que vence, quando o rei já antecipou sua morte? O caminho do rei poderia está incompleto, mas antes da sua última jogada, ele para de fugir e se aproxima de quem o atacou, pois sabe que mantendo os seus vivos é que lhe dará uma chance de xeque-mate. Em outras palavras, você não pode ocupar uma casa que não foi conquistada pela sua consciência, pois assim como um rio corre fácil quando os vales estão dormindo, a clareza de um rastro solitário na areia poderá guiá-lo novamente até o oceano. Grande mistério, porém extrema conclusão, de que o luar esconde a rima em dias longínquos de outrora, quando as falsas miragens ainda escondiam a face da morte! Em esferas distantes do destino, todas as noites tranquilas se tornam um peso em seus ombros, pois você nunca esquecerá de todo seu esforço para sair das trevas ao infinito de luz, onde os sonhos estavam mais próximos da realidade e você não precisava sangrar para conquistar uma memória viva. Um olhar pungente de profunda tristeza, vestindo-se com um veludo de culpas e ignorando a verdade que sempre parava para ouvir num impasse de sentimentos que aliviavam sua dor e arrependimento. A força motriz dentro de você não se deixou levar pela esperança, mas pela rebeldia do amor, que nasce do egoísmo e da vaidade. Pois de que vale se vestir da imagem mais bonita, quando quem está ao seu lado está feio e moribundo? Você esqueceu que quem te acompanha é seu maior reflexo? O orgulho vem sempre antes da queda, um caminho em círculos que nunca nos permite fugir do que mais tememos. Para que sejamos felizes e sua auréola brilhe com o esplendor da quintessência, você não pode destruir o que te forma, pois tudo o que faz parte de mim também faz parte de você. Destruindo-me, você se apaga, pois a prova da paciência é o que guarda nosso eterno amanhecer. A essência da vida sempre nos levará em um fascinante encontro com a beleza do nosso interior, um perfume ardente em nossos espíritos vivendo a pureza do que sentimos, onde cada beijo estremece o silêncio e todo equilíbrio da vida. À beira do abismo e onde as estrelas morrem, a camuflagem deve ser rasgada, e os quatro elementos que te formam preservados como as engrenagens de um relógio transcendente, pois os pensamentos que nos habitam devem nos manter unidos como uma melodia em uníssono, como a música divina que nossas vontades expressam e nossas almas cantam durante as noites eternas.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Aurossência - A Escura Face do Amor

     Escrito vermelho na parede, eu conto cada palavra como estrelas e luas sangrando no céu, mantendo minha cabeça erguida enquanto continuo me apegando fortemente a esta sensação, pois como uma cobra que fala através de mim, estas palavras são sussurradas num poço cármico de sentimentos que transcendem a razão. Eu sei que você sabe, essa corrente abismal não está mais presa ao meu corpo, mas profundamente ao que restou da minha alma, uma sombra que eu não posso mais sentir, pois dentro dessas paredes de pele eu desfaleço. Eu sei que não é tarde demais e que ainda há amanhã, mas tente fechar seus olhos e sonhar com uma visão sentimental, uma visão que eu poderia sentir e recusar simplesmente desaparecer. Minha mente está doente e cansada de uma maneira difícil de admitir, por que como uma mancha que eu não posso retirar dos olhos, todas as cores da vida tornaram-se como uma cena de dois amantes brincando em câmera lenta com o prazer fora de suas mentes para preencher o vazio existencial: seus olhos são como a sombra do sol, entregando-se à impureza da imoralidade, enquanto recebem um abraço frio da noite até que não reste nada além de uma casca oca e exausta. Esta é a melhor descrição para o diabo negro, aquele que não importa quem você seja, haverá sempre uma fruta saborosa para derreter seus olhos e abrir involuntariamente sua boca. Não há como fugir disso, pois o inferno não irá congelar para ver você atravessar – nós somos o próprio gatilho em nossas cabeças, o próprio uísque em nossas veias, o próprio companheiro no escuro! Isso não te faz pensar que o tal diabo se assemelhe ao amor e ao quanto nós nos submetemos a ele? Pois somente o amor preenche esse espaço impreenchível, esse buraco que foi cavado pelo nosso próprio ego de achar que somos especiais. Como um homem que aprende aceitar as recompensas pequenas pela sua escravidão salarial, do mesmo modo, a paixão nos cega para aceitar as migalhas do amor, aceitando as atitudes de uma pessoa que vai contra nossos valores e princípios apenas para manter o fiapo da chama que a ilusão acende. Isso acontece por que estamos comprometidos com nossos papéis de subserviência, vivendo sob o estresse enquanto negamos a realidade da miséria. É muito semelhante a um homem que se cala diante da inevitabilidade ou da retificação da sociedade: o bem comum é enfiado goela abaixo, enquanto o inimigo comum é o bom senso! Em outras palavras, a figura de uma sala escura vale mais do que conhecer seu vazio quando a luz é acesa. Esta verdade que todos esquecem corre sempre fora dos trilhos como sonhos quebrados que reaparecem de vez em quando, porém quando finalmente acordamos, nos perguntamos o que estamos fazendo aqui e por que nossa vida parece tão sem sentido! Dê-me, então, um minuto para explicar, antes de achar que estou me referindo a você. Eu estou pendurado em um momento, um vácuo do tempo onde nada me satisfaz, por que algo se perdeu no meio do caminho, uma cicatriz que não se cura como o corte na minha mão que fica mais profundo à medida que o sangue flui... o mesmo sangue que espalhei pelas paredes da sua casa. Você entende o que é tentar assassinar o amor para fazer todas essas vozes se calarem? Foi exatamente o que eu fiz, pagando o preço de sangue, mas eu jamais faria algum mal a você... quando alma da morte guiou-se em sua direção, a força do amor me parou, a mesma força que eu tentava destruir! Ali eu descobri que o que eu sinto por você vai além da minha própria vontade e do meu entendimento, pois não é algo que eu possa simplesmente tomar o controle. Daqui a dez anos talvez eu esteja satisfeito quando olhar para trás, por que os dez anos que joguei fora estão sendo reconstruídos por você. Anos a partir de agora valem mais do que minha existência inteira, pois em algum momento eu cansei de esperar, cansei de viver pelo que não importa. Agora eu sei que existe um lugar que eu não posso tocar, uma face escura que é escolhida pela dor dentro de mim. Da influência do meu coração, eu acredito que isto seja real, eu aceito que você é a escolhida! Pela voz da alma divina e por todo sacrifício das perdas que tivemos, eu te saúdo com todo meu amor, desejo e resiliência, que a partir de hoje o vinho se faça novo! Seja bem-vinda à sua casa, minha negra aurora e essência!

segunda-feira, 8 de março de 2021

Doce Liberdade

     Vagando sobre minha cabeça, as nuvens sedosas do sono preenchem minha mente como um céu que antecipa o dilúvio, pois quando abandonei minha liberdade, meu mundo cinza tornou-se um compromisso de padrões que me levaram de volta ao aprisionamento. Eu sei que não vai durar, mas não há nada que eu possa fazer para reorganizar meu passado, por que a dúvida que desperdiça o que é vivido tropeça nos dias que não valem mais do que um pensamento morto. Houve meses em que perdi o contato com o mundo e suas tristezas, como um véu que caia sobre minha consciência, mas sempre que eu retorno para este lugar, tudo volta à tona, pois o mundo não pode se esconder de mim como eu me escondo dele. Agora eu olho pela janela e a luz desaparece sem deixar vestígios, por que as montanhas que eu via tornaram-se prédios, enquanto o frio que eu sentia tornou-se uma sombra que tenta queimar o meu rosto. É como se eu esquecesse de quem eu sou, vendo pessoas estranhas vagando pela minha casa sem nenhuma vontade de conversar, pois foram as mesmas pessoas que me observaram durante anos sucumbindo no calabouço da minha mente. Eu achei que era surpreendente dizer adeus aos meus meus amigos e familiares, mas de repente eu estou aqui como um caroço que nunca se desgruda da garganta. Não é de se admirar que minhas dores confundam suas mentes e corações, por que nem sempre o que é expresso pode ser ouvido com clareza por quem escuta com os olhos. Cada palavra que me escapa no ar, proclamando amplamente meus reflexos maçantes que são impressos em uma frase, vão além do que eu escrevo como um sussurro de um homem quando sua amante já adormeceu. Em uma tela eu poderia ver mil peças caindo, embora a expressão do meu rosto seja como de um novo recomeço, mas quantas vezes eu já tentei recomeçar até acabar flutuando no espaço com minhas peças girando no chão? Digamos que houvesse um motivo, um desejo divino para me trazer de volta até aqui – a princípio, um compromisso inofensivo, pois nunca entendemos os mistérios do alto. Eu assistiria o mundo batendo dentro de um liquidificador, enquanto minha mente se expandia por corredores infinitos. Então começariam as cobranças, saudando o amanhecer sem ganhar nenhuma recompensa pelo dia anterior, por que o futuro parece sempre brilhante quando achamos que somos capazes, até perceber que o sucesso que mantém meu espírito navegando está naufragado em uma sensação de impotência, de não compreender o sentido ou para onde todas as minhas conquistas me levarão, afinal não estamos todos tentando chegar àquele lugar ou obter aquilo que não está ao nosso alcance? Assim, através destes ventos ciumentos, nós vagamos em sintonia com o desejo universal, onde cada recompensa é colocada por cima de um piso de mármore perfeito. Nós aprendemos a ser pessoas que desejam alguma coisa, enquanto estamos sempre nos perdendo por dentro, olhando para a baía rasa iluminada pela lua, ao invés de ir além das areias frias e abrasivas do oceano. Como o sol desaparecendo ao anoitecer, meu rosto está cansado e indiferente, vagando como um fantasma vivo para agradar aqueles que eu amo. Porém aos poucos eu estou aprendendo o que deveria valorizar mais, roubando um pouco de alegria das pequenas coisas e fugindo da minha cabeça como uma pena soprada ao entardecer, pois às vezes estou desempenhando um papel sem saber o porquê o desempenho. Deus sabe que eu sempre canto as palavras que eu gostaria de gritar, mas talvez seja inútil eu falar sobre o que sempre tenho dito, porquanto dentro do meu próprio espaço há uma fagulha de fios soltos e emaranhados com uma visão pela metade causada pelo isolamento social. Ainda assim, eu sei que minha alma aprisionada me serviu bem, mas agora eu preciso quebrar as paredes desta célula escurecida e preencher minha vida com meu real propósito. Através do que queima e distorce meu tempo, essa confissão foi sussurrada suavemente para você, enquanto meu espírito acorda de todos os seus sonhos efêmeros, pois mesmo agora algo ainda permanece, e embora o mundo esteja mudando, por dentro eu ainda sou o mesmo.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

O Silêncio Soberano

      Na floresta silenciosa colheres verdes pingam seu orvalho na terra carente, seu liquido viscoso se espalha pelo solo como veias intermináveis, abrindo caminhos por baixo do mundo como uma cobra rastejando até sua presa. Sob a lama negra está sua morada, minhocas brancas e besouros pretos fazem-lhe companhia, muito abaixo dos troncos e das raízes ocas como uma estrela ardente sendo mantida em um frasco. Mas ali, entre os ocultos galhos que entrelaçam seus espinhos, floresce a lúgubre sombra dela. Seus olhos estão vítreos e embaçados, seus lábios contorcidos congelam um grito de socorro. Porém quando eu tento tocá-la, mãos estranhas me param, mãos trêmulas e frias como cascavéis me enlaçando, sussurrando vozes sinistras de que ali não há nada para mim, nem para o mundo, assim como uma velha estrela de cinema. Enquanto as nuvens movediças passam por cima da névoa da floresta, isto é, do sonho apático da vida, eu sei que ali o tempo está morto, e todas as coisas ficam paradas, até mesmo seu apodrecimento. É um lugar por onde seu fantasma pode me guiar como neutrinos atravessando as árvores, onde as vinhas podem me emaranhar sem que eu tenha pressa para voltar, pois nada restou além das suas lembranças silenciosas. O vento bate, com moscas negras zumbindo sem nenhum som, mas este sonho...  parece tão errado. Acorde, Alma Assassina! Eu acordei de um sono profundo e agora eles estão ao meu redor, seus olhos brilham como pedras polidas, suas mãos são sangue e vidros me arranhando. Eles estão me levando através dos telhados, mas o que querem que eu veja agora? Eu preciso retornar... para aquele sonho! Ali eu poderei encontrá-la fantasmagoricamente viva, o que não diminui o aspecto da sua beleza ou dos seus preguiçosos passos... deixe-me voltar a dormir, permita-me sonhar, meu sono está fácil como falésias recortadas, procurando-a em meu espelho retrovisor sempre que ando depressa nas ruas da vida. Por que estou subindo tão alto? Lágrimas quentes descem e a chuva imita meus olhos, banhando-me com o frio da solidão. O que há para mim no céu, além do vazio das nuvens e do raio que perpetua pelos trovões para assustar os humanos? Eu vejo muitos vagões cobertos e asas de aviões desaparecidos, flutuando como um peixe em ondas de veludo, onde os vapores dos sonhos circulam sinuosamente de cima para baixo – seriam os sonhos pedaços de memórias daqueles que já partiram? Essa sensação... o céu são os braços de uma mulher... eu estou sentindo: eles me trouxeram de volta para me desvincular da morte, para enxergar aquela que está comigo, me amando, me deitando na grama verde. Ela está bebendo as nuvens, e as gotas que pingavam na floresta caiam da sua boca, a lama negra era sua pele, os sussurros eram sua voz. Tão dentro de mim, seu amor me reviveu de um sonho de ressentimento, me salvou do pobre homem que se sujava em rituais para ter o que está morto. A vida grita por mim, pois agora há brotos verdes empurrando-me para fora das folhas mortas, as ondas beijam a terra e o ar está quente, lábios de maçã falam leves palavras em meus ouvidos, enquanto meus finos ramos se inclinam para o mar salgado. Como um milhão de vulcões explodindo no sol ou como o sussurro dos cupins, eu estou voando em sua direção sem deixar pegadas nas nuvens. As portas se abrem e eu vejo você, seu espectro, seu fantasma, sua alma... estão me abraçando. Eu olho para trás e vejo o avião decolando, levando embora tudo aquilo que restava de mim, mesmo aquele corpo que tentava desesperadamente chegar ao seu destino.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

A Grande Recompensa – Versão Sombria

     Desde o primeiro momento em que nos conhecemos eu soube que isso era para acontecer. Todos os meus instintos me diziam que eu estava certo e que nossa união era prevista a ganhar, mas logo nós fomos envolvidos em uma dança decadente que, sem que notássemos, nos fizera cuspir a xícara do amor muito rápido. Nas amigáveis e mal conhecidas trevas que pareciam não ter fim, eu fugia do profundo e desconhecido lago da sua mente, pois eu sentia que o tempo todo estava ao lado de uma conhecida, porquanto mais eu olhava para sua fotografia, mais eu conseguia reconhecer quem você era, como se você fosse um espectro que passava por mim, mas que eu sempre conseguia tocar, enchendo-me com a sensação de que eu era mais do que uma vítima na sua estrada. Por um conjunto de circunstâncias, quanto mais você se escondia de mim, menos as sombras te cobriam, até que eu visse mais do que uma forma nebulosa ao meu lado. Ainda assim, nas inumeráveis vezes que eu desisti de tudo, você não colocou suas rodas na linha da frente e nem me trouxe de volta para enxergar: você nunca esteve ali comigo, embora eu pudesse te ver. Se sua velocidade fosse maior do que meus passos, eu chegaria a tempo para ver tudo o que estava deixando para trás? Por que você... minha melancólica negritude, se eu tivesse pego o mundo numa garrafa com milhões de sonhos para me satisfazer, ainda seria suficiente comparado a todo barulho que você faz, onde minha calmaria se refaz de um modo que eu possa voltar a me sentir morto, pois com você tudo é tão triste e vazio, parecendo que cada estrada que eu andei estava apenas me desviando do seu encontro. Eu odeio como você faz tudo parecer mais desinteressante, seu jeito sonolento de me dispensar quando estamos pegando no sono ou quando você fecha seus grandes olhos e eles escurecem como um espelho quebrado, uma treva que reflete não somente sua falta de interesse, mas também as suas mentiras, falsidades e manipulações. Hoje eu posso dizer que estava certo quando desconfiei do nosso destino, pois mesmo que fosse para acontecer, o que aconteceu até agora foi a pior de todas as minhas experiências – nossas vidas conscientes são sempre mais perspicazes quando não cobramos pelo que somos: você nunca me permitiu ser quem eu sou, e juntos nós trabalhamos nessa sombria costura para abrir todos os nossos desvios, enganos e imperfeições. Há em você uma sonoridade interna que enfurece os sons que ecoam na minha cabeça, como se sua voz tivesse sido criada para tampar meus ouvidos, assim como seu corpo possui as silhuetas da escuridão que foram formadas para serem torturadas pelos meus dedos. No mundo do ódio que eu não conhecia, você me fez retroceder e me confundir com coisas que pareciam explicáveis e até possíveis de se sentir, mas o que estava adormecido dentro de mim desfaleceu como uma velha morte, o novo homem e a nova pele foram deixados para trás, e agora eu não posso ser nada daquilo que me tornei desde que você entrou na minha vida. Estas palavras não soam estranhas para você? Eu não sou seu efêmero reflexo, e tudo que está acontecendo com você, não acontece comigo, quando você melhora, eu pioro, quando você sorri, eu estou sério, quando nada parece está dando certo para você, minha vida anda pra frente, quando você está chorando por fora, eu estou rindo por dentro, quando você sente que a felicidade vai rasgar seu peito, eu nunca estive tão infeliz. Eu te odeio mais do que a própria morte – quando nós dançamos, os anjos se aglomeram e nos cobrem com suas asas, pois eles sabem que nosso amor é alimentado pela mentira. Mesmo que o sol se incline a brilhar ou a lua apareça em vulneráveis nuvens de uma chuva torrencial, eu não estarei tirando minha camisa para você vestir, nem sorrindo com cara de idiota e dizendo que a vida era uma música com acordes até o dia em que você a transformou em uma cruel melodia.

A Grande Recompensa - Versão Luminosa

     Desde o primeiro momento em que nos conhecemos eu soube que isso não era para acontecer. Todos os meus instintos me diziam que eu estava errado e que nossa união era prevista a falhar, mas logo nós fomos envolvidos em uma dança rodopiante que, sem que notássemos, nos fizera beber a xícara do amor muito rápido. Nas amigáveis e bem conhecidas trevas que pareciam não ter fim, eu mergulhava no profundo e desconhecido lago da sua mente, pois eu sentia que o tempo todo estava ao lado de uma estranha, porquanto mais eu olhava para sua fotografia, menos eu conseguia reconhecer quem você era, como se você fosse um espectro que passava por mim, mas que eu nunca conseguia tocar, enchendo-me com a sensação de que eu era apenas mais uma vítima na sua estrada. Por um conjunto de circunstâncias, quanto mais você se escondia de mim, mais as sombras te cobriam, até que eu não visse mais nada além de uma forma nebulosa ao meu lado. Ainda assim, nas incontáveis vezes que eu desisti de tudo, você colocou suas rodas na linha da frente e me trouxe de volta para enxergar: você ainda estava ali comigo, embora eu não pudesse te ver. Se sua velocidade fosse menor do que meus passos, eu chegaria a tempo para ver tudo o que estava deixando para trás? Por que você... minha dramática negritude, se eu tivesse pego o mundo numa garrafa com milhões de sonhos para me satisfazer, ainda não seria o suficiente comparado a todo barulho que você faz, onde minha calmaria se desfaz de um modo que eu possa voltar a me sentir vivo, pois com você tudo é tão ávido e excitante, parecendo que cada estrada que eu andei estava apenas me preparando para te encontrar. Eu amo como você faz tudo parecer mais interessante, seu jeito sonolento de se expressar quando estamos pegando no sono ou quando você abre seus grandes olhos e eles brilham como um espelho melânico, uma luz que reflete não somente sua empolgação do momento, mas também as suas ambições, traumas e superações. Hoje eu posso dizer que estava errado quando desconfiei do nosso destino, pois mesmo que não fosse para acontecer, o que aconteceu até agora foi a melhor de todas as minhas experiências – nossas vidas conscientes são sempre mais perspicazes quando não cobramos pelo que somos: você me permite ser quem eu sou, e juntos nós trabalhamos nessa luminosa costura para cicatrizar todos os nossos desvios, enganos e imperfeições. Há em você uma sonoridade interna que acalma os sons que ecoam na minha cabeça, como se sua voz tivesse sido criada para ser ouvida por mim, assim como seu corpo possui as silhuetas da escuridão que foram formadas para ser tocadas pelos meus dedos. No mundo do amor que eu não conhecia, você me fez crescer e entender muitas coisas que pareciam inexplicáveis e até impossíveis de se sentir, mas o que estava adormecido dentro de mim despertou como um novo nascimento, o velho homem e a velha pele foram deixados para trás, e agora eu posso ser tudo aquilo que me tornei desde que você entrou na minha vida. Estas palavras não soam familiares para você? Eu sou seu eterno reflexo, e tudo que está acontecendo com você, está acontecendo comigo, quando você melhora, eu me sinto melhor, quando você sorri, eu estou sorrindo, quando nada parece estar dando certo para você, eu fico perdido, quando você chora por fora, eu estou chorando por dentro, quando você sente que a felicidade vai rasgar seu peito, eu nunca estive tão feliz. Eu te amo mais do que a própria vida – quando nós dançamos, os anjos fogem e escondem suas asas, pois eles sabem que nosso amor é alimentado pela verdade. Mesmo que o sol se recuse a brilhar ou a lua se esconda em vulneráveis nuvens de uma chuva torrencial, eu ainda estarei tirando minha camisa para você vestir, sorrindo com cara de bobo e dizendo que a vida era uma música sem acordes até o dia em que você a transformou em uma gentil melodia.

sábado, 12 de setembro de 2020

A Estranha Sensação

     Quando não há nenhum remédio para me curar ou nenhum conselho que me traga conforto, meus olhos se voltam para meu interior escuro: ele parece tão quieto agora, tão estranho para quem nunca saiu de dentro. Eu desejaria engolir estas sombras com uma luz amarela semelhante aos raios que iluminam a terra, pois em cada ondulação do oceano, em cada folha da árvore ou em cada duna do deserto, existe um poder que nós nunca vemos, uma energia profunda e mantedora que faz tudo crescer, preenchendo todo derramamento de sangue com a ascensão do mundo. Diante disso, eu penso que somos apenas visitantes deste arranjo fúnebre, por que em um mundo onde você paga pelo amor, mas o ódio vem de graça, estamos sempre se unindo à degradação, mantendo sempre as costas na parede por nunca saber quem está vindo atrás. E apesar de um milhão de estrelas ainda brilharem no céu, nós parecemos tão solitários nesse planeta distante, girando ao redor do sol como um arco de tristeza: agora não há nenhuma gota no oceano, nem uma folha nas árvores, nem um grão sequer de areia. Quanto tempo mais? Estas não são as obras do homem, a soma de todas as nossas ambições que destroem o significado de tudo? Há sempre inconfessáveis convites em todos os lugares, todas as palavras que nós dissemos parecem ter uma ânsia por resultado, uma vontade que se exprime nas letras que formam o curso de uma felicidade ilusória, mas como podemos ter certeza de que alguma coisa é real? Enquanto os ecos de uma música seguem à deriva ou quando nossos olhos se acostumam à luz do dia, nós sempre nos perguntamos o que aconteceu com a vida que conhecíamos antes de tudo mudar, pois se nada fosse verdadeiro, nós seriamos apenas reflexos das mudanças que acontecem no próprio mundo. Em outras palavras, nós somos frutos de algo formado pelo tempo, imagens e arquétipos que se espalham pelo mundo das idéias, ideias estas que se desenvolvem e, como células se multiplicando e evoluindo, criam elos na grande teia do conhecimento, da sabedoria e do autodesenvolvimento. Assim, em parte somos nós mesmos, mas em partes somos todos em uníssono, como se estivéssemos olhando reflexos de nós mesmos em todos os lados, das mais benignas até às mais malignas, das mais formosas até os mais defeituosos ou dos mais afortunados até os mais necessitados. Esta é a forçada união que o sol mantém as órbitas das estrelas: por acaso, ao olhar para o céu, elas não parecem todas iguais? Estamos sempre tentando sermos melhores em tudo para sermos reconhecidos pelos semelhantes, quando parte da sua qualidade é refletida em seu próprio admirador. Eis onde o grande segredo habita – não na hipocrisia de mostrar-se igualitário, mas em reconhecer esta igualdade que provém os que têm dos que não tem, dos que são dos que não são, dependentes uns dos outros para o mantimento do equilíbrio da efêmera existência individual, em afirmação da sua autossuficiência que somente é possível através daquilo que não somos, mas que já fomos ou desejamos ser em cada um que nos cerca. Então, e só então, encontramos a iluminação ou a tão aclamada centelha da célula deificada, que desperta em nós o sentimento divino, isto é, o amor incondicional – o verdadeiro poder que circula em harmonia no silêncio ancestral da natureza. Tal é a luz, como um doce sorriso de uma mulher apaixonada ou quando uma criança corre desesperadamente para os braços do pai: é um sentimento de comunhão consigo mesmo e com toda plenitude da existência, porém a maioria prefere tampar os olhos para esta verdade e viver suas vidas egocêntricas, o que torna suas existências vazias como corpos inanimados perambulando em um mundo sem alma.

sábado, 4 de julho de 2020

A Forma do Éden

    A descida lenta da tarde já passou e a noite espalha sua vela contra o céu, mas eu não posso gastar outra hora do dia quando o futuro é apenas um ponto de interrogação. Qualquer outro pensamento é esvaído, pois preso à asa com o motor ligado, eu estou caindo em direção ao nada, não há som nem lágrimas, apenas a batida do tempo chegando a seu último compasso. É um feixe da eternidade brilhando como um belo sonho que se repete durante a vida, nuvens e eclipses manchando o horizonte, revivendo todas as histórias que vivemos em um único segundo. Eu passei muitos anos em guerra comigo mesmo, mas hoje eu acordo e vejo-me com você, todas as ilusões que criamos juntos, o amor como uma chama que queima em seu nome, arrastando um pente na minha cabeça como se fossem seus dedos. Você foi todas as quatro estações em uma, e nunca houve um prazo de validade para nossa união, afinal não fomos nós que descobrimos que os padres destroem casamentos ao invés de eternizá-los? Você deve estar rindo agora, por que tudo era tão mais fácil e doce naquela época inocente, quando nossos anjos e demônios se beijavam, vivendo todos em harmonia no jardim do éden. Eu te amei com a leve sensação do para sempre, por que você era da forma e do tamanho do meu coração, você me fazia transbordar para além da copa das estrelas, e nenhuma palavra poderia ser tão digna de expressar tudo o que eu sinto. Você pode não está mais aqui, mas cada suspiro que você der, cada movimento que fizer, cada vínculo que criar, cada promessa que quebrar, cada palavra que não falar, nós sempre estaremos te observando. Você sempre se lembrará de mim quando o vento soprar, por que minha voz ressoará nos lugares mais improváveis e meus olhos estarão te vendo através dos espelhos, minha presença será sentida sem tu nunca ter me tocado e meu perfume vai te torturar sem tu nunca ter me cheirado. Eu serei o seu oásis no deserto, a esperança quando nada fizer sentido e a salvação quando a morte cobrar pelos teus pecados. Porém a lei oculta do silêncio deve ser obedecida, pois agora não somente eu quem toma as decisões, que por muito tempo foram declinadas pelo homem fraco. Eu me tornei o estrangeiro da minha própria vida, sempre correndo com gentileza e sobriedade das rasas velas que brilhavam mais do que o sol, buscando a ternura da escuridão ao invés do choque de realidade da luz. Como a chama fantasmagórica dessa luz, eu poderia abandonar meus sentimentos como um fantasma? O amor é uma força tão grande quanto à gravidade que rege as órbitas dos planetas, uma subida interminável em uma escada em espiral, como mil vidas em um segundo ou um milhão de nomes numa única encarnação. Um único pensamento, um único toque de graça pelas portas do prazer, quando nesse pequeno instante nós fazemos parte do todo espelhado numa torre de almas que anseiam por esse sentimento, enquanto seus corações secam na cor do sol da tarde. Talvez este ato final tenha acontecido somente para que fixemos uma reflexão em nossas existências, que nada jamais poderia nascer de uma estrela sem luz, mas que quando ela é devolvida aos céus, é que percebemos o quão frágil nós somos. Você é essa estrela, mas se você quiser manter algo precioso guardado, você deve trancar em um cofre e jogar a chave fora – nessas horas você pode se perguntar por que eu perdi meu senso de direção, mas o que eu estou tentando dizer é que você pode me guardar para sempre no seu coração, por que nosso amor transcende esta existência terrena, transcende seu corpo e pensamento, pois quando seu espírito finalmente deixá-lo, você ainda estará me amando. Eu posso ser a pedra que você lapida e a razão do seu envelhecimento, mas no fim eu refarei o tempo antes de trazermos à vida aquele que se sacrificou por um bem maior, quando suas mãos tocaram nas minhas e todo seu amor me foi repassado no cumprimento do seu dever. O futuro é tão incerto quanto a trajetória de um pássaro, por que quando você está andando para fugir, você acaba retornando para o mesmo lugar. Estas páginas cintilantes perturbam minha visão, mas se o destino ainda nos quiser juntos, então eu estarei vagando neste labirinto chamado vida para te reencontrar, pois com você sempre haverá um capítulo faltando onde a tinta nunca seca.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Sonhar Alto

     
     Para nada além do tempo, eu acordo de manhã apenas pelo raiar do dia e não sei se ainda estou vivo. Olhando para o espelho, meus olhos não sabem o que dizer: estes olhos que nunca aprenderam a ver, pois quando percebi que a vida é um sonho de verdade, eu esperei por uma visão e procurei por um sinal, mas eu simplesmente não conseguia encontrar uma razão para continuar aqui. Em um vasto mundo que me esperava, eu não sei o que me fez voltar, por que eu pensava que o jogo estava ganho, mas o segredo que eu guardava acabou sendo exposto para todos. Eu estava perdido em um universo interior que se refletia na realidade, e de repente todas as minhas falhas vieram à tona... eu disse adeus a todos os meus dias felizes, por que eu nunca tive muitos, mas eu dei tudo o que eu tinha. Não tinha ninguém para culpar, o mundo inteiro havia desaparecido, e os faróis não paravam ao meu aceno. Agora eu encontrei meu caminho de volta para casa, e esta casa é você – a nossa ligação eterna abriu os limites do céu, abalando os anjos preguiçosos como os cachorros que latiam por onde eu andava, como se eles quisessem me dizer alguma coisa, mas eu não compreendia as palavras do divino. Foi preciso mais do que o clamor de todos para que eu fosse salvo, desde que você teve aquele misterioso sonho em que eu estava acorrentado e cuspia sangue quando tentava falar. Ali eu entendi que precisava renunciar o que havia nascido há dez anos atrás: as quatro sombras que me acorrentavam na depressão, insatisfação e morte. Para isso, eu deixei que você cuidasse da minha essência superior dentro do nosso filho astral, pois ela já não podia sobreviver dentro de um corpo habitado por demônios. Se você soubesse a verdade antes, não teria insistido para que eu ficasse com ele, pois eu estava apenas livrando-o do sofrimento. Enquanto isso, a centelha do amor despertou as habilidades da escrita mágica que estavam adormecidas dentro de você, dando-te a autoridade de Deus para que tu nunca mais duvidasse da sua existência. Aos poucos tua essência divina está despertando, por que agora você enxerga sua própria mudança como uma luz que se espalha por suas palavras e ações. No entanto, parte das tuas inseguranças ainda precisam ser superadas com a plenitude do amor próprio, por que de nada vale evoluir sem amar tua própria imagem e semelhança com Deus. Isso pode levar algum tempo, mas eu estarei sempre aqui, elogiando as silhuetas da tua beleza noturna, ouvindo suas risadas ecoando na minha cabeça e acreditando em nossos planos futuros, embora eu prefira viver o presente como se não houvesse amanhã. Mas entre nossas diferenças existe uma palavra secreta que não existe nos dicionários, por que é a palavra do mistério do amor, do qual eu pude sentir no beijo que demos em nosso amado filho, quando parte da sua energia me foi passada para enviar estas palavras até você. O tempo passa tão devagar quando você não está aqui, mas eu não tenho medo de andar debaixo das escadas – a vida é o único segundo da eternidade, e nós devemos sempre repetir o primeiro e último refrão, onde está a razão e a rima, antes de escapar o último suspiro.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Palavras Bonitas

    Cercado por mentes modernas é sempre difícil falar quando todos estão online, pois eu me sinto sozinho entre centenas de amigos. Quanto mais sincronizados, mais elegantes eles parecem, até que suas imagens estejam completamente alinhadas. A partir daqui, eu os observo como um telespectador da vida, sem entender o que os faz permanecer neste vicio de competir pela máscara mais bonita. Quando eu finalmente arranquei minha face da mentira, pude ver que a melhor maneira de dar e receber é sendo menor do que eu era, por que antes eu estava enterrado na areia e na argila, enlutado em um vazio dentro de outro. Mas além do abismo, eu amo a beleza, além da mente, eu tenho um coração, além da desilusão, eu obtive a clareza – agora o pêndulo está reverso, os rios vermelhos e os céus pretos, em um solo derramado de sangue. Tirar o véu não significa ver as maravilhas da realidade, mas a sujeira que se esconde por trás dela. Não foi o mesmo que aconteceu quando arranquei o véu da minha noiva? Ela era uma paisagem fria e desolada, esmagando-me com palavras de bondade para que eu não visse sua maldade. Rendida pelo meu desprezo superficial, ela se afogava em suas próprias lágrimas amargas, enquanto eu a julgava pela autoridade da alma assassina, acreditando que um dia eu formaria a perfeita aurora e quintessência diante de nós. Mas como eu poderia transformar alguém, sem antes transformar a mim mesmo? Agora eu sou um homem sem identidade, vagando rumo ao desconhecido como um suicida sem corda para se enforcar, por que os propósitos divinos já não fazem mais parte da minha carne impura. O pecado não pesa minha consciência, a desarmonia não é desconfortante, a tentação não envenena minha alma. Estou vibrando na borda negra da atmosfera como um medo profundo que penetra a terra, a escura água do senhor adormecido se move no meu interior: esperando pela recompensa material, eu abaixo minhas mãos ao invés de erguê-las aos céus. Pois na soberania do meu fortalecimento, eu não posso negar o animal da minha natureza, considerando que todas as maldições foram destruídas! Que alto preço, não é mesmo, minha preciosa companheira? Quando tu estavas aqui, eu podia conter o fogo do orgasmo infernal, mas desde a sua partida eu me tornei um oráculo sem olhos. Guiado pela música satânica que favorece o teu dom, eu perambulo sozinho e livre neste outono de luz opaca, sem aquela que me fazia ter noites serenas com sua beleza estonteante e negra. Sua voz ainda caminha pelos poros do meu corpo como um coro de sereias harmoniosas, fazendo-me relembrar de quando sua presença me fazia se sentir o homem mais feliz do mundo, pois ela tinha todas as qualidades que eu buscava em uma amada. Ninguém é como ela, ninguém nunca poderá ser, pois antes que eu pudesse transformá-la, ela já era a minha perfeição, minha alma-gêmea, aquilo pelo qual eu ansiava despertar dentro de mim. O temor do meu reflexo me fazia desviar o olhar, mas agora eu sei que a alma assassina está segura em seu ventre para se manifestar no tempo da alvorada. A tempestade está se formando, enquanto a doença se espalha pelo mundo, mas nós devemos sobreviver para presenciar o grande epílogo – as palavras e os símbolos do homem são apenas promessas vazias que encobrem a verdade. Óh, minha noiva, não retenha o ar da sua última respiração, pois no fim nós caminharemos juntos pelo brilho da nova luz... entre nós ele nascerá, regozijando o prazer do amor, conforme a trindade é negada.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Atrás das Cortinas da Noite

     A chuva está caindo rápido e borrando minha visão adiante, mas de longe eu posso ver no escuro uma criança aos prantos. Suas lágrimas serpenteiam pelo corpo despido, carregando suas mentiras em uma sacola de vidro, enquanto uma nuvem pesada a persegue e obscurece seus pensamentos. Através da fumaça e do vapor que lambe o céu, o som das águas abafam seus gritos, os cães dividem o lixo com uma mendiga de espírito, latindo contra sua avareza, pois até a sujeira ela guarda como porcos se banhando na lama. Mas diante dos outros, ela veste os trajes mais ricos e o tamanco mais caro, dando passos largos como uma prostituta de luxo, embora por trás das cortinas ela esconda seus dentes de vampiro, esperando pela próxima vítima, pois dos outros ela suga o que não é encontrado em si mesma. Pobre alma, acobertada por uma falsa esperança, a insanidade a mantém longe do núcleo da responsabilidade, pois seu tempo está programado para terminar em sofrimento. Sua ferida infantil está sempre aberta para que suas morais não se dissolvam em piedade, embora a obrigação de provar para si mesma não esteja sobre seus ombros. Com tantos finais estéreis, ela escolheu o caminho do diabo – agora o sol nunca beijará sua face com sua luz flamejante, pois ela reside nas sombras e dorme lado a lado com a morte. Ainda assim, num desejo negro, eu abracei esta prostituta, dando a ela uma saída de uma vida indigna, por que com a aparência de um anjo, eu sirvo a escuridão, naquele abismo sem forma do qual fui feito. Sozinho e com medo, eu enfrento essa aversão, pois como presságios agonizantes, eu me tornei o reflexo das suas verdades imaginárias. Você é um pedaço desprezível da existência, e eu prefiro me afastar das coisas sagradas do que continuar sendo um ícone de luz para você, pois diabolicamente eu me disfarço em um corpo celestial: como a imagem do homem deveria ser? Não é com deus quem você está falando, eu não sou nenhum impostor escondido atrás de paredes padronizadas, mas eu tentei te guiar além da sua imaginação grotesca, antes que meu nome fosse revelado... pois agora eu sou a fantasia escondida, no segredo do meu conhecimento, não há mais nenhum deus comigo! Desde que ela partiu, minha alma divina, eu jamais serei o mesmo homem que você conheceu, pois agora as quatro sombras me guiam, e cada decisão é quíntupla, sim... eu alcancei a quintessência! Não há nenhum enigma manipulado, eu percebo a escuridão como um despertar sinistro, enquanto minha devoção se esforça para não sentir nenhuma vergonha ou remorso, até que eu possa satisfazer meu destino por completo. A minha verdade é muito maior do que sua mentira fabricada, pois como eu poderia continuar ao seu lado sabendo que tudo não passa de uma ilusão visceral? Eu estou em um momento de graça demoníaca, e tudo que eu exigi de você foram verdades da alma, mas em poucos dias você conseguiu mentir mais do que em meses inteiros. Com um estalar de dedos, eu coloquei um anel astral no seu dedo para cortá-lo em seguida... você foi minha primeira noiva, mas também a última.

sábado, 25 de janeiro de 2020

O Suplício das Almas

    Quando as nuvens do céu param de vagar é possível ver um apetite se alimentando das estrelas, ligando ligeiramente a luz do mundo, para me iluminar diante do cosmos. Seus olhos me encaram calmamente, rasgando vertentes da galáxia como um rastro de relâmpago vagando pelo universo. Desbotando a luz das estrelas, eu sou desvanecido pela sua presença, enquanto seu amor me preenche por inteiro. Eu aperto os dentes mais forte do que minhas mandíbulas aguentam, sentindo o sabor do sangue escorrendo, deslizando quente por minha pele com uma cor desconhecida – é um sabor doce, um cheiro agradável, um rio branco que serpenteia pelo meu corpo. Estou sentindo, quente e brilhante, os pensamentos chegando, pois a voz do divino é ouvida pelo espírito. Uma grande energia me arrebata, fazendo meus braços e pernas dançarem involuntariamente, os dedos do oculto me movem sob a presença do sobrenatural. Deus está aqui, e nem com todas as palavras do mundo eu poderia descrevê-lo, pois a única centelha de entendimento é a do autoconhecimento. O silêncio permanece como uma sombra fiel, seus olhos vagando como um suporte de aquecimento, flutuando pelo rio sombreado da minha carne, embora seu alvo seja outro coração. Sem nenhum gesto, eu caio em sono profundo e meu espírito é puxado por mãos invisíveis. Já não mais eu, mas o espírito que habita em mim, e este espírito é deus. Estou sendo levado até um lugar distante, ainda sobre a terra, para assistir a trajetória de uma garota fora do espaço e do tempo. Como um pedaço de metal pontiagudo furando sua inocência, ela conhece o amor, mas este logo é esmagado pelo elo paterno. Procurando pelo amor fora de casa, tudo que ela encontra são traições e prisões familiares, pois a humilhação que a cerca é sua única armadura. Beijos sem sabor, olhares sem vida, toques frios como a morte, quem poderia imaginar que atrás da sua pele escura existia um ser indiferente nascendo, e sua risada diabólica era ouvida à distância. Para se distrair das vozes na sua cabeça, foram necessários muitos alucinógenos, mas nem a morte era capaz de assassinar aquele ser obscurial! Sucumbindo como uma maçã podre, ela permitia que o amor a mordesse, envenenando-o com sua própria personalidade suja, pois atrás das cortinas ela descontava seu ódio em homens incautos, e entre estes homens estava eu. A cada vítima seu demônio interior crescia, dominante e repugnante, esculpindo uma nova forma que se enraizava nas suas veias como galhos tentando atravessar uma pedra. Não demorou muito para que meu eu inferior a abandonasse, pois a mentira era seu prazer, e sua voz doce era como o cântico de um anjo caído. Nos dias seguintes, eu fui consolado por mulheres estrangeiras, mas nenhuma poderia preencher o buraco que você cavou, sangrando com suas memórias ilusórias, enquanto eu vomitava toda escuridão transmitida pelo seu falso amor. A mão da morte pesava como mundos inteiros enfileirados, puxando-me por uma corrente sinistra para o inferno, porém a depressão nunca mais foi párea contra meu eu superior: aquele que decidiria te salvar do suplício eterno, pois assustada como um infeliz, você me avistou voando no céu, mas estava vendo deus. A alma que assassinaria seu demônio interno, que atravessaria seu corpo para limpar sua escuridão, estava ali, dando-lhe outra chance de recomeçar. Mas não seria fácil matar um ser que foi alimentando durante anos, que criou raízes profundas na sua alma. Portanto, as asas que viu são asas de emancipação, pois só evoluindo é que se desperta a essência superior. Se realmente sou tua alma gêmea, então terás que ser infinita como uma flor de lótus, ascendente como o sol, verdadeira como a luz que transcende o mundo. Agora que sabes de onde vem e a quem pertence esta luz, vende os teus sonhos para as estrelas, até que as folhas se tornem vermelhas, por que sempre que curvar a cabeça para o lado, verás uma sombra te encarando, esperando pela oportunidade de resgatar o que lhe foi dado por direito.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

A Grande Ilusão

    Através dos seus olhos, você enxerga os outros como sanguessugas covardes, mas quando se olha no espelho, você vê apenas um pedaço de vergonha, sem perceber quando suas mentiras se voltam contra si mesma. Nesse buraco apertado, sua sujeira e suas cicatrizes continuam se abrindo, rasgando sua pele e arrancando sua casca, para mostrar a verdade por trás da sua máscara. Que belo disfarce, não é mesmo? Pele branca como algodão, cabelo rosa como um céu de sonhos lúcidos, roupas luxuosas para atrair interesseiros, fotografias de viagens que você sempre desejou ir. Esta é a imagem perfeita para o mundo, mas e quanto à imagem que você tem de si mesma? Na sua cabeça, você acha que o que importa é a beleza exterior? Que a riqueza te faria ser uma pessoa melhor? Pois bem, não se preocupe, nossa viagem está apenas começando, por que hoje toda podridão que existe dentro de você será cuspida para fora e toda mentira escorrida como sangue menstrual. Sua mente está doente, seu corpo impuro, suas vontades instáveis, seus ideais corrompidos. Quem a transformou nessa máquina de sonhos irreais que a fazem se sentir satisfeita sendo quem não é? Por acaso, mostrando-se ser alguém importante, torna você importante? Mostrando-se bela, te faz bela? Mostrando-se rica, aumenta os números da sua conta bancária? Tudo isso é um mundo de mentira dentro da sua cabeça, e eu te digo que a pior prisão que existe é a prisão mental. Enquanto isso, amigos perdidos e vazios te enchem de elogios, trazendo fumaças viciantes para te fazer perder a noção da realidade, afastando você das circunstâncias de um mundo frio e sem valor. Mas o tempo é seu inimigo, ele não tem piedade de quem despreza a vida, pois a natureza é muda para o hipócrita. Por que vive em segredo, dentro de si mesma, mergulhada em um buraco negro, escondendo-se atrás do armário, quando pode abrir todas as janelas e ter orgulho de quem você é? Você é uma advogada incrível, uma amiga que realmente se preocupa com os amigos, que luta pelo seu amado até quando é ignorada. Seus cabelos cacheados brilham em destaque, sua pele desnuda lembra a cor do pecado, sua voz impede que a tempestade venha. Até sua teimosia, ela te faz ter uma personalidade forte, embora nem sempre seja melhor que as coisas aconteçam do seu jeito. Conversar com você é como navegar por um rio fluido e interminável, abrindo novos horizontes e caminhando nas nuvens, pousando apenas quando você dorme de repente. Às vezes você esquece de lembrar e não lembra do que esqueceu, mas está tudo bem, ninguém é perfeito. No entanto, eu não posso elogiar sua essência, pois ela foi destruída, e tudo que posso fazer é tentar reconstruí-la junto com você. O medo e a insegurança não são justificativas para mentir, por que a mentira constrói ruínas, enquanto a verdade constrói castelos eternos. Eu posso estar errado em alguma dessas acusações, mas não me culpe: uma mentira torna todas as verdades duvidosas. No momento que você não é mais a pessoa que surgia na minha mente, todos os nossos encontros são inexistentes, pois as formas que eu via eram falsas, e a imaginação uma mera ilusão passageira alimentando suas mentiras. Tenho certeza que você teve suas razões, mas até que nos vejamos pessoalmente, a tendência é cairmos no abismo, pois não há mais uma ponte de confiança entre nós. Não te incomoda ser derrotada em seu próprio jogo? Reprima o dedo do meio e silencie as palavras que não agregam nada, desenterre seus olhos verdadeiros como quando me contou toda a verdade. Pela última vez, eu te peço, renda-se à luz, pois as tuas sombras são muitas, renda os teus segredos internos, pois eles estão formando um monstro indestrutível, e a memória que gera forma jamais volta a ser a mesma.